

EVOCAÇÃO CAPUNGA
Sábado
à tarde. Nenhuma leitura programada, a canseira do todo-dia.
É a vez em que aproveito o tempo vazio para limpar a poeira
dos meus livros, mas logo desisto, essa vontade absoluta de ficar
sem fazer nada. É sábado também na minha rua,
como diz o poeta, e há meninos jogando bola no meio da rua,
sem o perigo de quebrar vidraças - que minha rua é
pobre.
Lá para as bandas do fim da rua, aonde nunca fui e não
como é nem o que tem, se é que, de alguma sedução
para os olhos, evapora-se no ar um toque de realejo, segundo resume
o meu ouvido. Pode não ser, mas vamos fazer de conta que
é e não vamos, na verdade, perder nada com isso. Um
realejo, e acabou-se. Apuro o ouvido e fico a imaginar coisas, de
mistura com lembranças distantes.
O entardecer na Capunga, Recife; aqueles entardeceres dos meus passeios
de sempre, ou quase sempre, se não fossem antes viagens sentimentais
através do Recife de outras eras, pela sugestão romântica
daqueles casarões de fisionomia antiga. De um deles, dando
de ver na ampla sala da frente respeitáveis retratos nas
paredes, em molduras douradas, vinha sempre a sinfonia de um piano
antigo, rosas murchas de uma saudade antiga.
Não era na sala da frente o piano, e eu, ao passar ali defronte,
quase pé ante pé, alteava o pescoço, alongando
o olhar para dentro, pela janela aberta, a única, e não
se me ofereciam à curiosidade dos olhos senão aqueles
retratos solenes nas paredes, o olhar de papel brilhando no silêncio
do vidro. E eu queria ver tanto aquele rosto tirando das cordas
do piano aqueles abismos de saudades.
Nunca o vi, porém; mas o imaginava sombrio de uma solidão
antiga, na lírica tristeza de uns olhos de mulher madura,
como afogados nas águas mansas de lembranças e recordações.
E era uma impressão tão viva, tão plena de
realidade, como deve ser no sentimento intuitivo, que aquele rosto,
que nunca vi, me acompanhava no meu trânsito pelos entardeceres
da Capunga, mas nunca no entardecer de um riso cheio de saudades.
NOITE
DE SÃO JOÃO
Outrora, das capelas enfeitadas / Um perfume de rosas se evolando...
/ As lanternas de cores nas fachadas / E na rua as fogueiras crepitando.
Vozes de preces pelo ar cantando, / Ao som de violões acompanhadas;
/ Balas de luz no espaço se cruzando; / Meninas a bailar
pelas calçadas...
Hoje, tudo acabou! Vestida em praça, / A cidade perdeu todas
as linhas / Da sua antiga e encantadora graça...
Ó, como é diferente das primeiras / A noite de São
João... sem ladainhas, / Sem lanternas de cores, sem fogueiras...
(Soneto de Antônio Soares, poeta assuense, também juiz
de direito)
LINGUAGEM
O que caracteriza,
dando-lhe vida e graça, a linguagem literária é
o discurso indireto livre. Sem o que a narrativa fica parecendo
texto de reportagem. Ou fica mesmo sendo isto. O escritor, se o
é mesmo, sabe encontrar nesse recurso de linguagem sua identidade
com suas personagens, com a própria narrativa, o que sobremodo
aviva a expressão da sua arte. A criação literária.
No velho Machado de Assis, por exemplo, o discurso indireto livre,
muitas vezes numa única oração, é de
uma beleza surpreendente.
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