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PÁGINA ATUALIZADA AOS DOMINGOS
CORNÉLIO
ALVES
O
eleitor precisa denunciar
quem compra voto
Por:
REGY CARTE - Foto: Marcos Garcia
O juiz Cornélio Alves assumiu segunda-feira, 7, a 33ª
Zona Eleitoral, que abrange Mossoró e Baraúna. Ao
lado do juiz Francisco Seráphico da Nóbrega, titular
da 34ª Zona Eleitoral (Mossoró e Serra do Mel), comandará
as eleições deste ano em Mossoró. O que não
é novidade para o magistrado, pela terceira vez designado
juiz eleitoral e que já esteve à frente das duas zonas
eleitorais. Também foi juiz de Direito nas comarcas de Pedro
Avelino (1ª entrância) e Martins (2ª entrância).
Nesta entrevista, Cornélio Alves fala dos preparativos da
Justiça Eleitoral para as eleições/2008, a
seis meses do pleito. Entre outras coisas, afirma que a compra de
votos e abuso de poder política serão rigorosamente
combatidos e pede que o eleitor denuncie os políticos infratores.
Ele se diz a favor de que o indivíduo com vida pregressa
maculada não pode ser candidato, mas acha difícil
a aplicação dessa recomendação do Tribunal
Regional Eleitoral (TRE), porque vai de encontro ao princípio
da presunção da inocência. Cornélio Alves
também aponta necessidade da criação de outra
zona eleitoral em Mossoró, mostra-se contrário à
obrigatoriedade do voto no Brasil e ao possível terceiro
mandato do presidente Lula por considerar salutar a alternância
de poder.
JORNAL DE FATO - Qual o principal desafio da Justiça Eleitoral
nas eleições municipais deste ano?
CORNÉLIO ALVES A eleição municipal
sempre é mais problemática que a estadual, porque
há um envolvimento maior de todas as forças políticas
do município na luta pela busca do poder local. Creio que
o desafio maior da Justiça Eleitoral será o combate
ao abuso do poder político e econômico, sempre procurando
garantir a igualdade de direitos e oportunidades entre os postulantes
a cargos eletivos, preservando a regularidade do processo eleitoral.
COMO a Justiça se comportará no combate ao abuso de
poder econômico e político no pleito de outubro?
A JUSTIÇA Eleitoral não ficará inerte.
O nosso propósito é fazer cumprir a lei, mantendo
o equilíbrio, a segurança e a transparência
durante todo o processo eleitoral. Junto com o Ministério
Público, que é o guardião da ordem jurídica
democrática, vamos procurar combater o abuso do poder econômico
e político, especialmente a compra de votos, fazendo com
que os infratores sejam punidos. Nesse trabalho é importante
a participação dos eleitores no sentido de denunciar
os infratores.
O FIM dessas irregularidades eleitorais deve começar do cidadão,
em não aceitar a compra de voto, ou do político, que
deve mudar de mentalidade e buscar outros meios para a conquista
do eleitor?
INFELIZMENTE, ouvimos falar de manipulação de
eleitores carentes por alguns políticos inescrupulosos. Essa
é uma prática condenável e entendo que o abandono
dela deve partir dos dois lados, ou seja, do candidato e do eleitor.
Os dois têm que mudar de mentalidade, pois não podem
usar o voto como moeda de troca na obtenção de vantagens.
O voto deve ser conquistado com idéias, projetos, programas,
não em troca de benefícios. Não condiz com
a essência da democracia esse tipo de procedimento.
O TRE/RN recomendou aos juízes eleitorais do Estado análise
da vida pregressa dos candidatos antes do deferimento dos pedidos
de candidatura. Essa orientação é fácil
de ser aplicada? Será seguida em Mossoró este ano?
INDIVÍDUO com vida pregressa maculada não deveria
mesmo ser candidato. A intenção é das melhores,
mas reconheço que não será fácil a sua
aplicação porque vai de encontro ao princípio
constitucional da presunção de inocência. O
próprio Supremo Tribunal Federal decidiu que a aplicação
da norma que trata da análise da vida pregressa do candidato
tem eficácia limitada à edição de Lei
Complementar. Fica um pouco difícil a aplicação.
POR que essa recomendação não foi feita há
mais tempo, já que é Norma Constitucional desde 1994,
através da Emenda à Constituição nº
4?
A NORMA depende de regulamentação e como ainda
não houve essa regulamentação há quem
defenda a sua auto-aplicabilidade. Os que defendem a auto-aplicabilidade
cansaram de esperar a norma regulamentadora e partiram para a aplicação
imediata.
QUAL a importância da análise da vida pregressa dos
pretensos candidatos para a política brasileira?
Quando a norma puder ser aplicada plenamente será da
maior importância a análise da vida pregressa dos candidatos
a cargos eletivos. Em sendo assim, pretensos candidatos com passado
sujo, com condenação criminal, mesmo ainda não
transitada em julgado, serão alijados de logo do processo
eleitoral. Não condiz com o princípio da moralidade
permitir que um indivíduo que teve suas contas rejeitadas
pelo Tribunal de Contas, que foi condenado por crime contra a Administração
Pública, mas ainda não transitou em julgado, possa
concorrer a um cargo eletivo e se eleger.
O VOTO eletrônico colocou a Justiça Eleitoral brasileira
na vanguarda, mas a estrutura física, principalmente no interior
do RN, ainda deixa a desejar. Mossoró foge dessa regra?
Felizmente as eleições são informatizadas
em 100% do território nacional. A informatização
foi uma revolução no processo eleitoral e serviu de
exemplo para o mundo. Hoje a votação é rápida
e a apuração também. Logo após o término
da votação é conhecido o resultado da eleição
e não se espera mais três, cinco, dez dias, para a
divulgação do resultado, como antigamente. Em Mossoró,
como em todo o Estado, a estrutura física é boa para
a instalação e funcionamento das urnas eletrônicas.
O FÓRUM Eleitoral Celina Guimarães Viana, inaugurado
na semana passada, já está em pleno funcionamento?
Ainda não. Estamos em fase de mudança, que deve
se completar até o final do mês. O prédio é
novo, moderno e irá acomodar bem a sede da Justiça
Eleitoral nesta Zona.
A NOVA sede da Justiça Eleitoral em Mossoró dispõe
de estrutura para abrigar outra zona eleitoral. Mossoró,
que já possui duas, a 33ª e 34ª, necessita de mais
uma?
Mossoró deveria ter mais uma zona eleitoral, e a sede
da Justiça Eleitoral tem condições de abrigar
a Zona que for criada.
PRESOS não-sentenciados em Mossoró exercitarão
o direito do voto nas eleições deste ano. Como será
feito esse trabalho?
A PARTIR de segunda ou terça-feira tratarei do assunto
com o chefe da Zona Eleitoral e o diretor da Cadeia Pública,
de maneira a possibilitar que os presos que se encontram recolhidos
naquele presídio possam votar normalmente nas eleições
de 5 de outubro, numa seção que lá será
instalada, somente para eles.
O senhor é a favor da obrigatoriedade do voto?
NÃO. O voto facultativo é mais condizente com
a democracia. É assim nos Países com grande tradição
democrática. O exercício do voto deve ser encarado
como um direito, não como uma obrigação, passível
de punição. Veja que apesar da obrigatoriedade do
voto no nosso sistema, muitas vezes a abstenção é
grande numa eleição e nunca acontece a punição
porque os políticos tratam logo da aprovação
de uma lei isentando o eleitor de multa.
O CIDADÃO Cornélio Alves é a favor do terceiro
mandato do presidente Lula, cuja possibilidade vem ganhando corpo
em Brasília nas últimas semanas?
NÃO SOU. Basta à possibilidade da renovação
do mandato uma vez, como acontece atualmente. Eleito pela primeira
vez o político ter a opção de se candidatar
mais uma, submetendo-se a julgamento popular, através do
voto. Se for reeleito, tudo bem, deve-se respeitar o resultado da
maioria. A alternância do poder é salutar, principalmente
numa democracia. Na última eleição não
votei em Lula, mas reconheço que o seu governo é o
melhor desde quando me entendo de gente, apesar da deficiência
nos setores de saúde e segurança, principalmente.
Nem por isso sou a favor de um terceiro mandato.
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