

Uma estrela apagada
Eu tinha
perdido em Recife minha carteira profissional e precisava tirar
a segunda via, já em Areia Branca, com vistas a ir de muda
para o Rio de Janeiro. Funcionava na cidade um posto, coisa assim,
da delegacia do trabalho, de que era encarregado uma mulher que
não era mais antipática porque era uma só.
Mas, devo dizer, o que tinha de antipática tinha de bonita
também.
Não era de lá, via-se logo. E não lembro de
tê-la visto alguma vez, em qualquer canto da cidade, do contrário
não teria ficado tonto de espanto com sua beleza quando fui
à repartição que dirigia a fim de tirar a segunda
via da minha carteira profissional. Não dizer do estado civil
dela, se era solteira, casada, viúva, o que lá fosse,
dentro ou fora do direito ou do torto. Só sei que era muito
bonita.
E tanto bastou para amenizar, em mim, o inesperado impacto da sua,
dela, antipatia, que nem por isso lhe empanava, um mínimo
que fosse, a figura ornada digamos dos mais raros dotes de beleza
física. Sempre fui tímido, e por isso sem jeito diante
de mulher bonita, fiquei sem saber dizer-lhe a que vinha, ainda
mais pelo jeito direi mesmo desprezível com que me recebeu.
Um detalhe. Antes de anunciar-me, alonguei o olhar pelo postigo
que fazia a comunicação entre o público e aquela
(única) funcionária, o que ela, lá da sua mesa
de trabalho, atulhada de papéis, de logo me reprovou de forma
a mais grosseira, atirando-me, depois, um "pode entrar"
que me pareceu, pela ferocidade dos olhos dela, apesar de muito
bonitos, que ela ia estrangular-me. Confesso que ainda tive vontade
de voltar, séculos ali indeciso.
Perguntou-me a profissão (auxiliar de escritório),
"isto não é profissão coisa nenhuma",
xingou-me. Outras grosserias. Tive vontade de dizer-lhe uns desaforos,
a língua como que amarrada. Não, não me dava
a carteira profissional, que isso é para quem tem profissão.
Ordenou-me que me retirasse, quase como quem tange um cachorro,
ou isto mesmo, um gesto com a costa da mão. Mais tarde, dei
com ela num cabaré de Natal. Fez que não me viu.
Assalto
Caso perdido, para o bem do povo e felicidade geral da nação,
seria uma boa a legalização do assalto, com normas
éticas e operacionais para o exercício da profissão,
que exigiria cadastramento no Ministério da Justiça,
com expedição da identidade funcional. Assim, no ato
do assalto, o assaltante se obrigaria a apresentar à vítima
sua identidade, matrícula no INSS e certidão mensal
de quitação com o imposto de renda. Nada de violência,
salvo no caso de desrespeito à lei, ou seja, reação
do cliente.
Voltaire
Parodiando o mestre francês, se o Brasil não existisse,
teria de ser inventado.
LINGUAGEM
Diz lá o
jornalista e escritor Paulo Francis, dos melhores estilos deste
país, que se deve aprender a lógica para se usar como
quiser. Sem dúvida, aplica-se à gramática a
idéia de Paulo Francis. Não quer isto dizer que se
deve escrever de forma ininteligível, o que vale dizer sem
nexo e sem sintaxe. Mas, e só isto, que, aprendida a gramática,
como instrumento de organização do raciocínio
lógico, é de bom aviltre escrever com liberdade. O
que se quer é que a frase seja clara, o que não se
pode dar se for ininteligível. Sem sintaxe.
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