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MOSSORÓ (RN), SÁBADO, 24/05/2008 (ATUALIZADO: 01:37hs)
 
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Uma estrela apagada
Eu tinha perdido em Recife minha carteira profissional e precisava tirar a segunda via, já em Areia Branca, com vistas a ir de muda para o Rio de Janeiro. Funcionava na cidade um posto, coisa assim, da delegacia do trabalho, de que era encarregado uma mulher que não era mais antipática porque era uma só. Mas, devo dizer, o que tinha de antipática tinha de bonita também.
Não era de lá, via-se logo. E não lembro de tê-la visto alguma vez, em qualquer canto da cidade, do contrário não teria ficado tonto de espanto com sua beleza quando fui à repartição que dirigia a fim de tirar a segunda via da minha carteira profissional. Não dizer do estado civil dela, se era solteira, casada, viúva, o que lá fosse, dentro ou fora do direito ou do torto. Só sei que era muito bonita.
E tanto bastou para amenizar, em mim, o inesperado impacto da sua, dela, antipatia, que nem por isso lhe empanava, um mínimo que fosse, a figura ornada digamos dos mais raros dotes de beleza física. Sempre fui tímido, e por isso sem jeito diante de mulher bonita, fiquei sem saber dizer-lhe a que vinha, ainda mais pelo jeito direi mesmo desprezível com que me recebeu.
Um detalhe. Antes de anunciar-me, alonguei o olhar pelo postigo que fazia a comunicação entre o público e aquela (única) funcionária, o que ela, lá da sua mesa de trabalho, atulhada de papéis, de logo me reprovou de forma a mais grosseira, atirando-me, depois, um "pode entrar" que me pareceu, pela ferocidade dos olhos dela, apesar de muito bonitos, que ela ia estrangular-me. Confesso que ainda tive vontade de voltar, séculos ali indeciso.
Perguntou-me a profissão (auxiliar de escritório), "isto não é profissão coisa nenhuma", xingou-me. Outras grosserias. Tive vontade de dizer-lhe uns desaforos, a língua como que amarrada. Não, não me dava a carteira profissional, que isso é para quem tem profissão. Ordenou-me que me retirasse, quase como quem tange um cachorro, ou isto mesmo, um gesto com a costa da mão. Mais tarde, dei com ela num cabaré de Natal. Fez que não me viu.

Assalto
Caso perdido, para o bem do povo e felicidade geral da nação, seria uma boa a legalização do assalto, com normas éticas e operacionais para o exercício da profissão, que exigiria cadastramento no Ministério da Justiça, com expedição da identidade funcional. Assim, no ato do assalto, o assaltante se obrigaria a apresentar à vítima sua identidade, matrícula no INSS e certidão mensal de quitação com o imposto de renda. Nada de violência, salvo no caso de desrespeito à lei, ou seja, reação do cliente.

Voltaire
Parodiando o mestre francês, se o Brasil não existisse, teria de ser inventado.

LINGUAGEM
Diz lá o jornalista e escritor Paulo Francis, dos melhores estilos deste país, que se deve aprender a lógica para se usar como quiser. Sem dúvida, aplica-se à gramática a idéia de Paulo Francis. Não quer isto dizer que se deve escrever de forma ininteligível, o que vale dizer sem nexo e sem sintaxe. Mas, e só isto, que, aprendida a gramática, como instrumento de organização do raciocínio lógico, é de bom aviltre escrever com liberdade. O que se quer é que a frase seja clara, o que não se pode dar se for ininteligível. Sem sintaxe.



       




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