

FRONTEIRAS
TRANSGREDIDAS
Bruno Peron Loureiro
Os setores financeiros divulgam que as fronteiras tornaram-se desnecessárias
e porosas nas últimas décadas, uma vez que é
possível transferir dinheiro e informação de
um país a outro em poucos segundos, enquanto outros falam
da crise do Estado-nação, porém é curioso
notar que os Estados Unidos vigiem cada vez mais sua fronteira com
o México e até ameacem a construção
de um muro, ao mesmo tempo que aumenta a xenofobia na Europa em
relação aos imigrantes africanos e o controle migratório.
Desta forma, o Estado-nação vive atualmente o seu
momento de maior importância e imprescindibilidade como organização
política e conceito identitário, ao contrário
do que apregoam alguns grupos defensores dessa porosidade. No Brasil,
as fronteiras são mal vigiadas e, por isso, vítimas
de transgressão; tema de que trataremos.
Dos países da América do Sul, o Brasil só não
possui fronteira com Equador e Chile. Temos 23.086 km de fronteiras,
sendo 15.719 km terrestres. Só para comentar o caso da fronteira
com o Peru, nosso país tem sido invadido (não gosto
deste termo, mas não achei outro melhor) por madeireiros
que agem no Estado do Acre desmatando as reservas e extraindo madeira
com o objetivo de levá-las ao outro lado da fronteira de
onde vieram. O controle por parte de nossos agentes migratórios
é praticamente nulo, na mesma proporção em
que os contrabandistas estão preocupados em ser surpreendidos.
A medida, neste caso, é patente: conquistar o respeito fronteiriço
com o envio, mesmo que temporário, de tropas do Exército
brasileiro para realizar a patrulha.
O que acontece na fronteira com o Paraguai dispensa comentários,
uma vez que é trânsito de contrabando e migração
ilegal. Fracassada a intenção paraguaia de conquistar
uma saída para o mar com a dolorosa guerra do Paraguai (1864-1870),
hoje eles ao menos controlam metade do que se produz na hidrelétrica
de Itaipu. Agrego que nosso país é o único
na América do Sul que não tem base militar dos Estados
Unidos, embora este país esteja ansioso por conseguir um
espaço em Alcântara, Maranhão. Isto se deve
a que, segundo os cálculos, gasta-se menos combustível
para enviar foguetes próximo da linha do Equador e, segundo
a suspicácia, esses abelhudos querem acompanhar de perto
o que acontece na Venezuela, cujo governo lhe cutuca.
No Brasil, entra e sai qualquer um e a qualquer hora. Vimos o caso
vergonhoso do jato pilotado por estadunidenses sobrevoando nosso
espaço aéreo em altura e rota não autorizadas
até derrubar o avião da Gol que matou 154 pessoas
em setembro de 2006, no caminho entre Manaus e Brasília.
No mínimo, o governo brasileiro deveria encaminhar um julgamento,
mas ficou tudo no esquecimento. Nossas fronteiras são incomensuráveis,
mal vigiadas e meramente geográficas; uma coisa leva a outra,
pois a grandeza dificulta a patrulha. No mapa geográfico,
parecem salientes e definidos os contornos do grande Brasil; na
prática, poucos a temem. São vulneráveis e
desrespeitadas até pelos que temos como irmãos do
Sul, cuja relação é sadia, mas não deve
ser cega.
Assim, deixamos o problema dos narcotraficantes na fronteira com
a Colômbia para expor em outra ocasião. Para tratar
do problema fronteiriço, nada mais adequado que o aperitivo
da defesa brasileira para que o prato saia quentinho. No entanto,
esse Exército defasado que temos, que dispõe de baixo
investimento em armas, tecnologia e estratégia, só
serve mesmo para cantar o hino e acompanhar outras cerimônias
formais, embora seja uma instituição de prestígio
e respeito. Mas, claro, por que investir em defesa num país
que não combateu a miséria, dentre outros males. Ao
deixar de ser condescendentes, todavia, já poderíamos
enfrentar esses problemas com a ousadia peculiar à magnitude
deste país. Circunscrever e defender o que é nosso:
eis um ponto de partida.
Bruno
Peron Loureiro
é em Relações Internacionais pela
UNESP (Universidade Estadual Paulista)
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