

Os sonhos de bagaé
Você
acredita em premonição? Bom, da parte que me toca,
nem sei mesmo o que lhe diga, tantos são os fatos que se
contam por gente de cuja integridade moral não se pode duvidar,
nem de longe. Mestre Bagaé, por exemplo, que nasceu Manoel
Gonçalves Pereira, em Macau, em 1800 e tantos. Mergulhador
de profissão, veio bater em Areia Branca, aos 13 anos, e
lá ficou até a morte, aos 105 anos da sua idade.
Cresci ouvindo as histórias de Bagaé, na sala principal
lá de casa, as janelas abertas ao vento nordeste que caía
sobre a cidade pelas horas da tarde, e parece que o estou vendo,
o charuto mastigado no canto da boca, o riso irreverente nas feições
grosseiras. Quem lhe avaliasse os sentimentos pelo jeito irreverente
de ser, andaria mal avisado, pois Bagaé era um coração
amigo de servir, fosse a quem fosse, e sem medir distância.
Mas nosso assunto era a premonição. Era, digamos,
um dom de Bagaé. E um dom infalível, segundo era dito
e ouvido. Pois muitas vezes uma embarcação, fosse
de transporte ou de pescaria, estando prestes a fazer-se de vela,
Bagaé corria em prevenir o mestre do perigo que o aguardava,
a certa altura do mar, navegasse mais à costa, mais esta
ou aquela orientação da sua longa experiência
de vida toda inteira no mar.
Eu disse premonição? A bem dizer, não era verdadeiramente
isto, senão mais exatamente um aviso, que lhe vinha geralmente
em sonho, que ele garantia ser como se estivesse acordado. Via os
perigos do mar, nos mínimos detalhes, e logo cedo da manhã
seguinte à noite do sonho se apressava em procurar o mestre
da embarcação em perigo de naufrágio, a ensinar-lhe
o que devia fazer, outras vezes adiar a viagem.
Notem, porém, que não estou aqui afirmando nada, mas
apenas contando o que ouvia contar a Bagaé, de ordinário
confirmado pelos seus companheiros do mar. Pois também é
verdade que, entre estes, mas sem se afastaram do devido respeito
ao velho homem do mar, alguns havia que viam, nisto tudo, e apenas,
a experiência das surpresas do mar, e que lhe vinha em sonhos
claros, à feição de aviso. Quem sabe não.
Concurso
Multicursos está matriculando candidatos ao concurso para
o Correio. As aulas se iniciam dia primeiro, no União Colégio
e Curso. Dias 23 e 30, aulão gratuito, na Biblioteca Municipal.
Propaganda
O Brasil visto da propaganda colorida do governo na televisão
dá-nos a impressão de um país do chamado primeiro
mundo. O zero massificado, como no romance desse nome de Loyola
Brandão.
Frase
"Os políticos não são ruins. O povo é
que não presta." De um homem do povo.
LINGUAGEM
ORTOGRAFIA. Quase
sempre se confunde "expectador" com "espectador."
São, no entanto, vocábulos de sentido diferente. Grafa-se
com "x" quando significa estar na expectativa de alguma
coisa, na esperança ou probabilidade de conseguir algo. Exemplo:
Permanecemos na expectativa de um Brasil melhor. Com "s",
no sentido de assistir a um espetáculo (basta associar o
"s" de "espectador" ao "s" de "espetáculo).
Exemplo: Os espectadores aplaudiram de pé o artista. Escrevem-se
com "s": esplêndido, espontâneo, estranho,
esgotar.
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