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MOSSORÓ (RN), DOMINGO, 15/06/2008 (ATUALIZADO: 18:27hs)
 
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Receita para escrever livros
IVAN MACIEL DE ANDRADE

Em livros que procuram ensinar a “escrever livros” - geralmente de autores norte-americanos - há sempre uma afirmação estimulante capaz de gerar vocações ou conduzir a graves equívocos de ambições malsucedidas: muitos homens e mulheres que começam a escrever sem qualquer pretensão literária se transformam de uma hora para outra em autores consagrados (e não só pelo reconhecimento do público, mas pelos milhares e milhões de dólares que conseguem arrecadar com direitos autorais e atividades correlatas - conferências, palestras, entrevistas). Ninguém nega que isso acontece nos Estados Unidos, pois alguns desses escritores têm suas obras traduzidas para o português e aqui se tornam também campeões de venda. Daí a grande quantidade de cursos de formação de escritores (oficinas literárias) ou simplesmente de aprimoramento do gosto pela literatura que existem nos Estados Unidos. Quem começa a escrever, por mais otimista que seja, é evidente que pratica apenas uma espécie de “hobby”. Somente depois que termina e tenta publicar o livro que escreveu é que descobre se a coisa deu certo ou não. Mas há vários exemplos de ex-empresários falidos ou de donas de casa que se divorciaram e entram em estado de depressão que conseguem superar as dificuldades pessoais contando as histórias de suas vidas. Adicionam apenas aos sonhos, esperanças e frustrações reais, efetivamente vividos, fantasias com violência e criativas cenas de sexo, em doses equilibradas para não escandalizar. Essa receita às vezes produz agradáveis divertimentos, mesclados com enganosas tentativas de auto-ajuda.
Tudo indica que há um bom mercado - sobretudo na clientela anglo-americana, mas também aqui e, na verdade, em praticamente todos os países - para livros que se propõem a ensinar, com recursos didáticos, técnicas de leitura que podem ser úteis e proveitosas para quem pretende desenvolver suas aptidões literárias. Um desses livros é o de Francine Prose (“Para ler como um escritor”, ed. Zahar, 2008), romancista e ensaísta norte-americana e professora de literatura e criação literária “por mais de 20 anos” em várias universidades (Harvard, Columbia e Iowa). Seu livro está muito longe de ser uma contrafação: é inteligente, erudito e original. Embora tenha, obviamente, caráter de mera iniciação e a preocupação de proporcionar uma leitura aliciante, prazerosa. Mas não há dúvida de que o livro realiza satisfatoriamente grande parte dos objetivos propostos pela autora. Pode-se questionar apenas quanto à natureza de tais resultados: o método de “leitura atenta” preconizado por Francine é excelente para melhorar a performance dos leitores. Daí para frente é tudo muito polêmico. Assim como os cursos que ensinam a falar em público podem fazer, no máximo, com que as pessoas dominem eficientes instrumentos de comunicação, mas não as tornam necessariamente verdadeiros oradores, da mesma forma as dicas sobre leitura podem capacitar as pessoas a melhor compreender e desfrutar as grandes obras literárias, mas não possuem o condão de criar autênticos escritores. São coisas bem diferentes - o expositor e o orador, o leitor e o escritor. No caminho de uma realidade para a outra existe uma ponte - o dom ou talento pessoal, insuscetível de ser ensinado em escola. Ampliado, aperfeiçoado, claro que sim.
Chamou minha atenção o fato de a autora incluir de Honoré de Balzac, na relação dos “livros para ler imediatamente”, apenas “A prima Bette”. Isso acendeu minha vontade de relê-lo. Fui logo para o volume X de “A Comédia Humana” (ed. Globo, 1952, coleção “Biblioteca dos séculos”, com “introdução, notas e orientação de Paulo Rónai”), que tem como título “Os parentes pobres: A prima Bette - O primo Pons”. “A Prima Bette” (com tradução do esquecido crítico literário Valdemar Cavalcanti) é um romance com mais de 400 páginas (de formato grande e com tipo tão miúdo que retarda bastante a leitura). Não sei se essa é a maior obra-prima de Balzac. Mas é, sem dúvida, uma obra-prima. Francine Prose tem razão: “A prima Bette” é de leitura obrigatória e imediata.

IVAN MACIEL DE ANDRADE
é advogado



       




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