

Receita
para escrever livros
IVAN MACIEL DE ANDRADE
Em livros que procuram ensinar a escrever livros - geralmente
de autores norte-americanos - há sempre uma afirmação
estimulante capaz de gerar vocações ou conduzir a
graves equívocos de ambições malsucedidas:
muitos homens e mulheres que começam a escrever sem qualquer
pretensão literária se transformam de uma hora para
outra em autores consagrados (e não só pelo reconhecimento
do público, mas pelos milhares e milhões de dólares
que conseguem arrecadar com direitos autorais e atividades correlatas
- conferências, palestras, entrevistas). Ninguém nega
que isso acontece nos Estados Unidos, pois alguns desses escritores
têm suas obras traduzidas para o português e aqui se
tornam também campeões de venda. Daí a grande
quantidade de cursos de formação de escritores (oficinas
literárias) ou simplesmente de aprimoramento do gosto pela
literatura que existem nos Estados Unidos. Quem começa a
escrever, por mais otimista que seja, é evidente que pratica
apenas uma espécie de hobby. Somente depois que
termina e tenta publicar o livro que escreveu é que descobre
se a coisa deu certo ou não. Mas há vários
exemplos de ex-empresários falidos ou de donas de casa que
se divorciaram e entram em estado de depressão que conseguem
superar as dificuldades pessoais contando as histórias de
suas vidas. Adicionam apenas aos sonhos, esperanças e frustrações
reais, efetivamente vividos, fantasias com violência e criativas
cenas de sexo, em doses equilibradas para não escandalizar.
Essa receita às vezes produz agradáveis divertimentos,
mesclados com enganosas tentativas de auto-ajuda.
Tudo indica que há um bom mercado - sobretudo na clientela
anglo-americana, mas também aqui e, na verdade, em praticamente
todos os países - para livros que se propõem a ensinar,
com recursos didáticos, técnicas de leitura que podem
ser úteis e proveitosas para quem pretende desenvolver suas
aptidões literárias. Um desses livros é o de
Francine Prose (Para ler como um escritor, ed. Zahar,
2008), romancista e ensaísta norte-americana e professora
de literatura e criação literária por
mais de 20 anos em várias universidades (Harvard, Columbia
e Iowa). Seu livro está muito longe de ser uma contrafação:
é inteligente, erudito e original. Embora tenha, obviamente,
caráter de mera iniciação e a preocupação
de proporcionar uma leitura aliciante, prazerosa. Mas não
há dúvida de que o livro realiza satisfatoriamente
grande parte dos objetivos propostos pela autora. Pode-se questionar
apenas quanto à natureza de tais resultados: o método
de leitura atenta preconizado por Francine é
excelente para melhorar a performance dos leitores. Daí para
frente é tudo muito polêmico. Assim como os cursos
que ensinam a falar em público podem fazer, no máximo,
com que as pessoas dominem eficientes instrumentos de comunicação,
mas não as tornam necessariamente verdadeiros oradores, da
mesma forma as dicas sobre leitura podem capacitar as pessoas a
melhor compreender e desfrutar as grandes obras literárias,
mas não possuem o condão de criar autênticos
escritores. São coisas bem diferentes - o expositor e o orador,
o leitor e o escritor. No caminho de uma realidade para a outra
existe uma ponte - o dom ou talento pessoal, insuscetível
de ser ensinado em escola. Ampliado, aperfeiçoado, claro
que sim.
Chamou minha atenção o fato de a autora incluir de
Honoré de Balzac, na relação dos livros
para ler imediatamente, apenas A prima Bette.
Isso acendeu minha vontade de relê-lo. Fui logo para o volume
X de A Comédia Humana (ed. Globo, 1952, coleção
Biblioteca dos séculos, com introdução,
notas e orientação de Paulo Rónai), que
tem como título Os parentes pobres: A prima Bette -
O primo Pons. A Prima Bette (com tradução
do esquecido crítico literário Valdemar Cavalcanti)
é um romance com mais de 400 páginas (de formato grande
e com tipo tão miúdo que retarda bastante a leitura).
Não sei se essa é a maior obra-prima de Balzac. Mas
é, sem dúvida, uma obra-prima. Francine Prose tem
razão: A prima Bette é de leitura obrigatória
e imediata.
IVAN
MACIEL DE ANDRADE
é advogado
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