

Diploma
em jornalismo: uma exigência que interessa à sociedade
(I parte)
Beth Costa
O principal argumento, entre os tantos que se pode levantar para
a exigência do diploma de curso de graduação
de nível superior para o exercício profissional do
jornalismo, é o de que a sociedade precisa, tem direito à
informação de qualidade, ética, democrática.
Informação esta que depende, também, de uma
prática profissional igualmente qualificada e baseada em
preceitos éticos e democráticos. E uma das formas
de se preparar, de se formar jornalistas capazes a desenvolver tal
prática é através de um curso superior de graduação
em jornalismo.
Por isso, de todos os argumentos contrários a esta exigência,
o que culpa a regulamentação profissional e o diploma
em jornalismo pela falta de liberdade de expressão na mídia
talvez seja o mais ingênuo, o mais equivocado e, dependendo
de quem o levante, talvez seja o mais distorcido, neste caso propositalmente.
Qualquer pessoa que conheça a profissão sabe que qualquer
cidadão pode se expressar por qualquer mídia, a qualquer
momento, desde que ouvido. Quem impede as fontes de se manifestar
não é nem a exigência do diploma nem a regulamentação,
porque é da essência do jornalismo ouvir infinitos
setores sociais, de qualquer campo de conhecimento, pensamento e
ação, mediante critérios como relevância
social, interesse público e outros. Os limites são
impostos, na maior parte das vezes, por quem restringe a expressão
das fontes - seja pelo volume de informações disponível,
seja por horário, tamanho, edição (afinal,
não cabe tudo), ou por interesses ideológicos, mercadológicos
e similares. O problema está, no caso, mais na própria
lógica temporal do jornalismo e nos projetos político-editoriais.
Nunca é demais repetir, também, que qualquer pessoa
pode expor seu conhecimento sobre a área em que é
especializada. Por isso, existem tantos artigos, na mídia,
assinados por médicos, advogados, engenheiros, sociólogos,
historiadores. E há tanto debate sobre os problemas de tais
áreas. Além disso, nos longínquos recantos
do país existe a figura do provisionado, até que surjam
escolas próximas. Deve-se destacar, no entanto, que o número
de escolas cobre, hoje, quase todo o território nacional.
Diante disso, é de se perguntar como e por que confundir
o cerceamento à liberdade de expressão e a censura
com o direito de os jornalistas terem uma regulamentação
profissional que exija o mínimo de qualificação?
Por que favorecer o poder desmedido dos proprietários das
empresas de comunicação, os maiores beneficiários
da não exigência do diploma, os quais, a partir dela,
transformam-se em donos absolutos e algozes das consciências
dos jornalistas e, por conseqüência, das consciências
de todos os cidadãos?
A defesa da regulamentação profissional e do surgimento
de escolas qualificadas remonta ao primeiro congresso dos jornalistas,
em 1918, e teve três marcos iniciais no século 20:
a primeira regulamentação, em 1938; a fundação
da Faculdade Cásper Líbero, em 1947 (primeiro curso
de jornalismo do Brasil); e o reconhecimento jurídico da
necessidade de formação superior, em 1969, aperfeiçoado
pela legislação de 79. Foi o século (especialmente
na segunda metade) que também reconheceu no jornalismo -
seja no Brasil, nos Estados Unidos, em países europeus e
muitos outros - um ethos profissional. Ou seja, validou socialmente
um modo de ser profissional, que tenta afastar a picaretagem e o
amadorismo e vincular a atividade ao interesse público e
plural, fazendo do jornalista uma pessoa que dedica sua vida a tal
tarefa - e não como um bico.
Com tal perspectiva, evoluíram e se consolidaram princípios
teóricos, técnicos, éticos e estéticos
profissionais, disseminados por diferentes suportes tecnológicos,
como televisão, rádio, jornal, revista, Internet.
E em diferenciadas funções, do pauteiro ao repórter,
do editor ao planejador gráfico, do assessor de imprensa
ao fotojornalista. Para isso, exige-se profissionais multimídia
que se relacionem com outras áreas e com a realidade a partir
da especificidade profissional; que façam coberturas da Ciência
à Economia, da Política aos Esportes, da Cultura à
Saúde, da Educação às questões
agrárias com qualificação ética e estética,
incluindo concepção teórica e instrumental
técnico a partir de sua área. Tais tarefas incluem
responsabilidade social, escolhas morais profissionais e domínio
da linguagem especializada, da simples notícia à grande
reportagem.
Beth
Costa é Presidente da
Federação Nacional dos Jornalistas.
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