

Olhai
os lírios do campo!
Públio José
Esta é uma das citações mais conhecidas da
Bíblia. Faz parte de um dos mais belos momentos vividos pelos
discípulos na companhia de Jesus. A essência de seu
discurso envolvia a questão da ansiedade das pessoas, já
naquele tempo, com a sobrevivência, com o vestir, o ter, o
exibir. Na sua palavra, Jesus exortava os presentes no sentido de
não se angustiarem tanto com as necessidades do dia a dia.
Muito sabiamente, Jesus já preparava as pessoas daquele tempo
e dos tempos atuais a respeito da importância
de preservar sua qualidade de vida, não permitindo a ocupação
da mente com pesos em excesso nem com uma configuração
de vida super avaliada nas coisas materiais. Aliás, Jesus
também deu uma certa importância às demandas
materiais de nossas vidas, deixando bem claro, porém, de
que nossa preocupação com essas coisas deveria caminhar
até um certo limite. A partir daí...
As palavras de Jesus lastreiam também uma afirmação
de fé. No momento em que fez essa afirmação
era verão na Palestina e nos campos, rigorosamente, não
havia lírio algum. Jesus tencionava, assim, puxar pela mente
das pessoas, fazendo-as lembrar de que, apesar da geografia árida,
seca que elas tinham diante de si, existia sempre a perspectiva
de um tempo de beleza, de fartura, de provisão. Ou por outra:
mesmo quando a vida está em baixa, com predominância
da dor, da incerteza, da amargura, existe sempre a perspectiva de
surgir o outro lado da medalha. E, através da fé,
um novo tempo poderá ser alcançado. À frente
de Jesus as pessoas estavam confusas. Como enxergar lírios
belíssimos, de uma textura luxuriante, em meio à secura
de um período de verão? Ou como enxergar uma nova
realidade de vida diante da escravidão materializada na presença
do senhorio romano?
Olhai os lírios do campo! Ao fazer tal afirmativa,
Jesus queria enlarguecer nossa visão, ampliar nossos horizontes.
Sabe-se que no campo existem armadilhas contra a vida. As aves de
rapina, os répteis, os rigores do inverno, o calor inclemente
do verão. Os predadores, os animais de grande porte, as ervas
daninhas... Apesar disso tudo, os lírios também surgem,
emoldurando com sua beleza uma nova realidade. O problema é
quando o campo em síntese, na ótica de Jesus,
uma alegoria da vida, do mundo é visualizado somente
através das grossas lentes do negativismo gratuito. Apesar
de todas as adversidades da vida, há sempre a presença
de algo belo a ser visto, focalizado, priorizado. E que, diante
de um vastíssimo leque de sentimentos que a vida nos impõe,
tais como o egoísmo, o individualismo, a soberba, a arrogância,
há sempre a chance de cultivarmos o belo, o frutífero,
o substancial, o edificante.
Ao que tudo indica, a planta que Jesus nomeou em seu discurso como
lírio é hoje conhecida com o nome científico
de anemone coronária. Tinha uma haste de uns
40 centímetros e pétalas vermelhas, púrpuras,
azuis, róseas ou brancas. Como se vê, algo de uma beleza
realmente estonteante em meio à aridez do solo palestino.
Segundo relatos históricos era uma planta de floração
comum na região, florescendo próxima ao tempo da colheita
do feno. Devido à sua beleza, já era usada em larga
escala na decoração dos ambientes requintados, bem
como nas casas simples dos moradores do campo. Era, por assim dizer,
um referencial de beleza, de nobreza, de excelência decorativa.
Uma planta que realmente fazia a diferença. É nesse
ponto que quero destacar o eixo sobre o qual gira o ensinamento
de Jesus. Fazer a diferença. Priorizar sentimentos nobres
sobre o negrume dos valores cultivados atualmente.
Há momentos na vida em que a mente se fecha. O horizonte
divisado vai somente um pouco além das agruras do dia a dia.
O belo da vida se perde diante da feiúra do contexto da existência.
É preciso romper essa linha divisória que demarca
a tristeza da alegria, a angústia da paz, o caos da ordem,
da serenidade, da esperança. Quando o campo da existência
está recheado de abutres, répteis e ervas daninhas,
é necessário se crer que, mesmo num campo assim, a
semente do lírio está lá, latente, pronta a
brotar a se fazer presente. A irradiar a vida com a variedade
de suas cores, a emergir bela, firme, altaneira em meio à
aridez da geografia social da atualidade. Olhai os lírios
do campo é em sua essência uma receita inteligente
de vida. Ou por outra, uma concepção ideal de vida
para quem deseja enxergar a realidade atual como algo mais do que
um mero passar de dias. Vai olhar?
Públio
José
é Jornalista
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