

O
CELULAR
Ex-seminarista,
dr. Normando trouxe dessa situação uma certa ingenuidade,
de modo que lhe faltava habilidade no trato com a psicologia feminina.
Casado com Eurídice, habituada à vida mundana, fazia
vida doméstica à noite, mas não se opunha às
saídas noturnas da mulher, às vezes para visitar uma
amiga, outras para ir às compras no shopping, e assim por
diante.
Muito bonita, um corpo que nada devia a qualquer miss, e cujas linhas
e curvas tinha o gosto de exibir pelas vestes provocantes, Eurídice
arranjava sempre um jeito de sair à noite para divertir-se,
e, muito viva, aproveitava-se da confiança ingênua
do marido, a quem convencia, fácil, entre beijos apaixonados.
Dr. Normando, muito certo do amor que lhe dedicava a mulher, ficava
sempre em casa, em sua sala de trabalho, à volta com petições
e processos, compêndios volumosos sobre a mesa empilhados.
Quase sempre, ou sempre, Eurídice chegava em casa além
da hora prometida, já pronto este ou aquele pretexto, o que
o dr. Normando, seguro da fidelidade de Eurídice, aceitava,
numa boa. E assim vivia o casal, na união que já durava
cinco anos, sem desconfiança nenhuma da parte dele dr. Normando.
Eurídice tinha muitas amizades, gostava de visitar, era isto
Ele é que, habituado à vida de seminário, muito
distante dos objetos mundanos, é que não tinha jeito
de sair à noite.
Mas o caso é que colegas de escritório de advocacia,
de hábitos noturnos, uma vez ou outra davam com Eurídice
num desses ambientes da noite, na companhia de um rapaz alto, musculatura
bem proporcionada, de atleta, aparentemente bem mais jovem do que
ela. Claro, tomaram-se logo de desconfiança, dava o que suspeitar
uma senhora casada saindo à noite com um homem que não
o marido, modos muito íntimos. De mais habitual em namorados.
E ficou uma inquietação, compadecida, ou sentimento
parecido, entre os colegas de escritório, ainda mais por
causa de não se encontrar um jeito de preveni-lo, ao dr.
Normando, temia-se pelo ferimento de sua sensibilidade, muito fina.
De resto, sabiam-no apaixonado por Eurídice, louco de amor,
ou coisa igual com nome diferente, poderia ser de ira contra eles,
colegas, sua reação, naturalmente convencida pelos
motivos de Eurídice.
Com pouco, no entanto, e não era para menos, dr. Normando
sentiu, ali no escritório, um clima diferente, os colegas
o olhavam, depois de se entreolharem, com um sentimento nos olhos,
estava, decerto, se passando alguma coisa relativamente a ele, que
seria? Mas, cauteloso, das virtudes humanas que trouxera do seminário,
preferia aguardar os acontecimentos. Mas que corria ali alguma coisa
relativa a ele, não tinha a menor dúvida. Era de ver.
Bem. Quando foi uma noite, Eurídice saiu com o celular do
dr. Normando, enganada. Desta vez, demorou-se mais; chegou em casa
ali pelas duas da madrugada, o carro apresentara problema de motor,
a sorte foi que um mecânico, que ia passando em frente à
casa da amiga, e conhecido desta, resolvera a situação,
horas. "Eu já estava, amor, sem saber o que fazer",
disse-lhe dr. Normando, aliviado da aflição. Graças
a Deus.
Pelas dez da manhã, chama o telefone do escritório.
Era para o dr. Normando.
- Dr. Normando, desculpe, aqui é do Motel Paraíso;
porque o senhor esqueceu no quarto, essa noite, o seu celular...
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