

LONGE
DO FIM DA HISTÓRIA
JUDITH BRITO
Francis Fukuyama teorizou sobre a democracia liberal como o fim
da história - mas em certos casos a história tem muito
a avançar, inclusive para voltar aos trilhos, como em certos
países da América Latina. É preocupante, por
exemplo, a onda autoritária contra a liberdade de imprensa
que ganha corpo. Governos com DNA autoritário mostram sua
incompatibilidade com a crítica e a livre circulação
de informações e opiniões, voltando-se contra
jornalistas, jornais e os meios de comunicação em
geral, por meio de leis casuísticas, ações
e declarações que visam a encurralar a mídia
e jogar contra ela a opinião pública.
Superados os anos de chumbo das ditaduras militares latino-americanas,
está claro que ainda levará tempo - entre avanços
e retrocessos - para se firmarem nesses países os valores
democráticos. Democracia não é apenas eleição
e consulta popular, mas uma cultura permanente de transparência
e de convivência tolerante com a crítica, por mais
contundente que seja. E a plena liberdade de expressão, a
aceitação de opiniões divergentes, sem nenhum
tipo de cerceamento, é um de seus fundamentos essenciais.
O que vemos hoje, em países como Venezuela, Equador, Bolívia
e Argentina é a negação desses princípios
elementares, com os governos usando de retórica populista
no seu desprezo pela liberdade e no seu desejo de impor monoliticamente
sua visão. A assembleia semestral da Sociedade Interamericana
de Imprensa (SIP), recém encerrada em Buenos Aires, foi mais
uma oportunidade para expor o longo rol de exemplos dessa tendência
obscurantista e totalitária antiliberdade de imprensa. A
própria Argentina, sede do evento, tem sido vítima
de uma agressiva campanha governamental contra os meios de comunicação,
incluindo a recente aprovação da Lei de Serviços
Audiovisuais, com endereço certo, o grupo "Clarín",
extremamente crítico em relação à administração
Kirchner. Um casuísmo gritante, que levou o grupo de mídia
a recorrer ao Poder Judiciário. Não satisfeito, o
governo instrumentaliza sindicalistas por ele beneficiados e os
estimula a prejudicar os veículos de comunicação
que lhe são críticos. Foi esse o objetivo dos piquetes
organizados por caminhoneiros argentinos, bloqueando a distribuição
dos jornais "Clarín" e "La Nación"
e da revista "Notícias". Não podia ser mais
emblemática uma ação que visa a impedir fisicamente
a circulação de veículos da mídia impressa.
Na Venezuela, de onde Hugo Chávez dá o tom de tudo
o que se tem feito de pior contra a liberdade de imprensa na América
Latina, em 2007 foi fechada a mais importante e tradicional rede
de televisão do país, a RCTV. Agora, o canal de notícias
Globovisión é sufocado por meio de processos e multas,
enquanto foram fechadas 34 emissoras de rádio e outras 240
estão ameaçadas de fechamento. Ao mesmo tempo, Chávez
incentiva a hostilidade contra os que não rezam por sua cartilha.
Relatório apresentado na SIP mostra que, apenas de junho
para cá, já ocorreram 107 ataques contra jornalistas
e veículos de comunicação, incluindo agressões
físicas a paus e pedras.
JUDITH
BRITO
é presidente da ANJ.
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