

A propósito de braços dados
O amigo
me perguntou: "Você notou que as moças de hoje
não andam mais de braço dado?" Seus trinta e
pouco, não deve ele ter alcançado o tempo em que as
moças, principalmente nas tardes e noites de domingo, rodeavam
a praça principal de sua cidade, o braço dado uma
à outra, no ritual do flerte. A rapaziada, pose de artista
de cinema, ficava às margens das faces da praça.
Sim, foi logo do que lembrei à pergunta do amigo, até
direi com uma ponta de saudade daqueles tempos, se bem que não
fosse eu, complexado como era (e ainda sou), um rapaz namorador.
Mas sempre me veio, como se eu passasse de leve pelo sono de uma
estrela, um pouco de saudade, outro pouco de uma ternura azul. Com
a imagem da minha praça antiga a se recompor na memória
dos meus olhos.
E como agosto de leve se anuncia na rolança dos dias, com
suas cores e ventos de fim das águas, dei-me de recordar
a festa de Nossa Senhora dos Navegantes, lá na minha terra,
as noites de novena, o incenso dos turíbulos despejando-se
portas afora da igreja sobre a praça, e era como se fosse
um convite às alturas do sublime. No coreto ao cento da praça,
a evocação sentimental das retretas.
Nos olhos verdes das praieiras do Ceará, alvas de um alvura
diáfana, o luar de agosto como que era a transfiguração
de lendas antigas, e o vento do mar, docemente ameigado, dir-se-ia
ir tecendo no ar iluminado de lua, rendas de labirinto com o perfume
que se lhes soltava da carnação entre branco e rosa.
Eram como rosas de um canteiro azul de estrelas sonâmbulas.
De ar ingênuo, num riso romântico, o braço dado
uma à outra, elas as praieiras do Ceará (Mutamba,
Cajuais, Icapuí, Melancias) faziam-me pensar num colar de
nuvens acesas estendidos sobre o chão da praça, a
minha praça de benjamins e bancos de madeira, o coreto a
pompear-lhe ao centro. E muitos daqueles braços quantas vezes,
meu Deus, levaram prisioneiro meu coração de rapaz
tímido e esquivo...
Prioridades
É geralmente sabido que educação e saúde
são as prioridades de um governo digno do nome. No Brasil,
tais serviços vivem das sobras orçamentárias.
O importante, devem pensar assim nossos homens de governo, é
ostentar um parlamento que se apresente como o mais caro do mundo.
E o pior é que a sociedade aceita isto, se fosse a coisa
mais natural do mundo.
Qualidade
Enquanto isso, os serviços de educação e saúde
são de qualidade incompatível com a fortuna pública
proveniente da receita do país. Se assim é, para que
servem nossos legisladores?
LINGUAGEM
NENHUM. NEM
UM. O estudante João Batista quer saber como se devem empregar
essas formas. Vamos ver. A primeira se opõe a ALGUM: Nenhum
homem é perfeito. Algum homem é perfeito (sentido
oposto). A segunda, que é uma negativa enfática, se
opõe a MUITOS, e equivale a NEM SEQUER UM: Ela não
disse nem uma palavra (nem sequer uma palavra). O termo "um"
é numeral, que se opõe a "muitos". Na forma
"nenhum", não há numeral. É só
aplicar a inteligência.
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