

Os
oitenta anos de Jair
Ticiano Duarte
O saudoso e inesquecível Mozart Romano, na sua elegância
e finesse, um dia me disse, numa mesa de uísque, no antigo
Granada:
- Tício (era como me chamava), sabe que agora sou sexy? Completei
sessenta anos.
O que diria ele se vivo estivesse para assistir a passagem dos oitenta
anos de Jair Navarro, seu velho companheiro de festejos carnavalescos,
no Jardim da Infância e Kafagestes? Ou das matinês
do Aero Clube, quando a vida ainda não amadurecera?.
Jair Navarro, em artigo publicado num vespertino da cidade, em 02
do corrente, fez uma afirmação inteligente, envelhecer
é uma conquista. Apesar das atribulações
da vida e de certos impactos psicológicos, uma constatação
ele fez, não tem queixas a apontar.
Belo o texto do xarias, Jair Navarro, meu amigo de infância
e juventude, ele mais velho um pouco e eu convivendo com a sua bravura
de atleta, pulando de vara os muros e cercas dos velhos quintais
vizinhos, para chegar à minha casa, na Princesa Isabel. Acompanhei
suas andanças com outros moradores da rua; nas programações
de auditório da antiga REN, Rádio Educadora de Natal,
hoje Potí, Orlando Garcia, seu irmão Jurinha, o negro
Touro, Crisanto: a briga com o menino maior e mais forte na porta
de emissora quando fomos derrotados pela outra turma do final da
rua Deodoro; a revanche que Jair planejou vingativa e vitoriosa,
num duelo de bofetadas e cinturões.
As lembranças felizes do tempo do Ipiranga Futebol Clube
(dos meninos da Princesa Isabel); os torneios no campo do América
(Jair jogando de centro-avante, Jurinha na meia-direita, Orlando
na meia-esquerda, Touro de zagueiro e Biguá de goleiro).
Uma tarde, em peleja contra o time de Aluízio Menezes, Nero
Futebol Clube (daí vem o apelido de Aluízio Nero),
Touro agrediu o árbitro, José Paulino (pai do ex-senador
Carlos Alberto) segurando-o pelo pescoço. Aluízio
Menezes ajoelhou-se e pediu:
- Touro, pelo amor de Deus, solte o homem. O pênalti que ele
marcou, não foi roubo. Ele está certo.
Éramos vizinhos e confidentes. Mais astucioso do que eu e
imaginativo, cortou com gilete o polegar direito e pediu que eu
fizesse o mesmo:
- Vamos juntar nosso sangue. De agora em diante, somos irmãos.
Ninguém apanha sozinho. Mexeu com um, mexe com o outro. Brigou
com um, briga com o outro.
Como mais novo me sentia protegido pela coragem de Jair. Sincero,
espontâneo, solidário. Não levava desaforo pra
casa.
No Atheneu fez época. O bedel José Bezerra Chamirranha,
teatralizou uma espinafração em cima de Jair e a resposta
foi uma violenta bofetada no homem, que cai no chão estatelado.
Custou-lhe uma suspensão por muitos dias.
Certa manhã, ele, eu, Chaguinhas (do Acari), Ivanildo Deus,
José Suassuna, resolvemos colocar sabão nos trilhos
dos bondes que passavam em frente ao Atheneu. Era uma tradição
da estudantada. Antônio Barbalho forneceu o dinheiro para
compra do material. Foi um estardalhaço. Os bondes deslizavam
e não saiam do lugar. Dias depois a reprimenda: portaria
do diretor, Celestino Pimentel, suspendendo todos, com exceção
de Antônio Barbalho. José Suassuna, com o lápis,
emendou a portaria e colocou - e Antônio Barbalho.
O diretor considerou um desrespeito aumentando a suspensão
de quinze para trinta dias, às vésperas das provas
de fim de ano. Quase éramos reprovados, por faltas, não
fosse a interferência bondosa do professor, cônego Luiz
Wanderlei.
Atleta de voleibol consagrado, na cidade. Grande nadador, com Roberto
Furtado, altas horas da noite, fez a travessia da praia de Areia
Preta ao Forte dos Reis Magos.
Aos oitenta anos ainda não perdeu o vigor e o sentido da
vida. Quando o reencontro, abre um sorriso de satisfação
e alegria. Simone de Bauvoir, disse que com os velhos o espaço
volta assumindo as traições do tempo: os lugares mudam.
Mas, os que aparecem permanentemente intactos, enfatizou,
não o são mais para mim.
Jair, assim mesmo, octogenário, não se surpreende,
nem se desaponta com a realidade da velhice que decepcionou a escritora
francesa, ao reconhecer que é impossível na terceira
idade, reencontrar os vestígios do passado, com esperança.
Jair, pelo contrário, meu velho irmão, espera tudo.
Ticiano
Duarte
é jornalista
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