

MEDO
NAS MALVINAS
Moradores
vivem em clima de
insegurança em meio à violência
Andrey Ricardo
Da Redação
Os moradores do bairro Dom Jaime Câmara, que fica situado
na zona leste de Mossoró e era conhecido como Malvinas, não
conseguiram superar a morte de uma criança de apenas seis
anos que foi atingida por uma bala perdida na cabeça. Hoje,
o clima é de medo e insegurança. Pouca gente se arrisca
a falar com a imprensa ou polícia para contar o que se passa
naquele setor, mas a verdade é que a lei do silêncio,
garantida a força, é quem impera. Se eu falar
com você, eles me pegam, justifica uma moradora daquele
bairro.
Na sexta-feira passada, o DE FATO esteve presente naquele bairro
e tentou conversar com algumas pessoas. A resposta é praticamente
a mesma. Eu só falo se você não colocar
o meu nome no jornal, respondeu uma comerciante de iniciais
E.B.N., que tem 48 anos de idade e mora no local há cerca
de 12 anos. Eu não posso aparecer porque eles vêm
aqui e... (pausa de alguns segundos). Eles são violentos
e é por isso que eu vivo trancada dentro de casa. A gente
tem medo, diz a comerciante. A mulher conta que já
pensou em mudar sua casa. Eu já pensei em sair. A gente
vive aqui, desabafou.
Já a dona-de-casa I.L.F, que tem 50 anos e mora no bairro
há cerca de onze, conta que não se arrisca sair de
casa em horários mais avançados e que não deixa
seus filhos nas ruas. Ela diz até seis horas da noite ainda
senta na calçada, mas que depois disso não sai. A
mulher conta que o problema maior é para quem mora mais perto
da favela do Forno Velho. Vem de lá para cá.
Quando começa o tiroteio, quem tiver na rua é alvo,
relata. De noite, aqui ninguém sai de casa porque tem
medo de levar um tiro do jeito que foi com a menina, acrescenta
a dona-de-casa que pede ajuda às autoridades.
O catador de lixo E.G.S, que tem 32 anos e mora no local há
mais de dez anos, conta que a partir das dez horas da noite, os
bandidos começam a andar armados pelas ruas. Se olhar
para eles, pode morrer porque eles acham que você tá
tirando onda..., comenta E.G.S.. Ele revela ainda que os bandidos
andam juntos e são unidos. É igual a um formigueiro.
Se uma pessoa mexer com um deles, é rápido. Logo chegam
os outros e aí tá feita a confusão, conta
o catador de lixo. Diferente de I.L.F, ele diz que às vezes
se arrisca a sair de casa. A gente até sai, mas num
é garantido voltar pra casa não, alerta.
Já o funcionário de um outro comércio, situado
mais longe da favela do Forno Velho, diz que nunca foi assaltado,
mas que é comum avistar pessoas andando armadas pelas ruas.
Rapaz, aqui ninguém nunca mexeu comigo não.
Mas o problema é que o bairro não tem segurança.
Os caras têm a mania de falar de São Paulo e Rio de
Janeiro, mas aqui está pior. Uma cidade pequena como Mossoró
chegar a esse ponto. Os caras fazem o que querem e não acontece
nada, reclamou o comerciante com iniciais P.H.O.M., que tem
29 anos e mora no local há de seis anos. Aqui é
difícil, conclui.
Dependentes
incomodam
Com o crescimento do tráfico de entorpecentes naquele setor
da cidade, surge um problema: os dependentes químicos. Essa
foi uma das principais queixas entre as pessoas entrevistadas pelo
JORNAL DE FATO. No começo, eu dava dinheiro a todos
que passavam pedindo. No fim do dia, eu gastava entre R$ 5 e 10.
Não dá. É por isso que cheguei a pensar em
baixar as portas, reclama E.B.N., 48 anos. Ela é proprietária
de um pequeno comércio e diz que o problema é com
os usuários. Eles passam toda hora. Vem um, depois
vem outro. É toda hora isso. Chegou uma hora que eu não
dava mais, diz.
O comerciante P.H.O.M. disse que nunca foi assaltado, mas, em compensação,
tem que dar dinheiro aos dependentes que passam pedindo durante
o dia. O problema num é nem com os assaltos, é
com os viciados e isso é ainda pior, diz o comerciante.
Para o catador de lixos E.G.S., o problema é ainda mais grave.
Ele revela que as represálias para quem não der dinheiro
podem ser violentas. Aqui perto de casa, eles pegaram um senhor
e deram uma surra porque ele não tinha dinheiro pra dar,
denuncia o morador. Se num der, eles podem até matar,
complementa E.G.S..
Promotor
defende a criação de
políticas públicas nas periferias
O promotor estadual de Justiça Olegário
Gurgel, responsável pela Infância e a Juventude de
Mossoró, defende a criação de políticas
públicas direcionadas para os bairros periféricos
que são atingidos pela violência. Você
tem que partir do pressuposto que o problema do uso de drogas entre
os adolescentes não pode ser diagnosticado de uma faceta
isolada. É complexo. Necessita de políticas públicas,
mas não apenas para o controle, mas para o fortalecimento
da educação, da assistência social, da saúde...
Ou seja, de uma intervenção mais global, justifica
o promotor Olegário.
Ele explica que o bairro Dom Jaime Câmara se encaixa no perfil
daqueles que estão mais vulneráveis aos traficantes,
que se instalam e vão contagiando a população
progressivamente. O uso do entorpecente, por jovens e crianças,
está ligado a esse contexto e decorre da falta de uma orientação
familiar, orientação escolar, orientação
de saúde, ou seja, de uma maneira global, acrescenta
Olegário, reforçando também a importância
de intervenção policial nesses locais. Mas paralelo
a isso, ninguém pode negar que precisa também da Polícia.
Eles são importantes, complementa o promotor.
Olegário ressalta que o MPE está engajado em levantar
a discussão em torno dessas políticas públicas
em Mossoró e que essa é uma meta que deve ser atingida
ainda neste ano. O Ministério Público quer discutir
políticas públicas porque não adianta querer
fazer um programa x para atender um adolescente usuário de
drogas sem tentar reduzir a vulnerabilidade nesses territórios,
esclarece a autoridade, acrescentando que a criação,
isolada, de um único mecanismo para combater o uso de drogas
entre crianças e adolescentes é insuficiente. É
inócua, opina o promotor.
O Ministério Público Estadual está preparando
um inquérito civil para diagnosticar quais são as
medidas a serem adotadas nesses locais que considerados mais vulneráveis
ao tráfico, de acordo com Olegário. Ele diz que pretende
concluir este trabalho até o fim do ano e colocá-lo
em prática. Estamos com um inquérito que vem
sendo instruído nos últimos anos pela Promotoria da
Infância, mas cujo objetivo é investigar que soluções,
em termo de tratamento, o que deve ser levado em consideração
para melhorar a situação desses locais, revela
o representante do MPE local.
Estado
faz levantamento para saber quanto vai precisar para gastar no RN
O Governo do Estado já iniciou os levantamentos
a respeito da quantidade de pessoal a ser contratada e de recursos
a serem requisitados ao Ministério da Saúde, de forma
emergencial, no combate à dengue. A expectativa é
que a decretação de "estado de emergência"
pela governadora Wilma de Faria, na última quinta-feira,
agilize a atuação da Secretaria Estadual de Saúde.
"Todos esses processos já vinham sendo tocados pela
secretaria, mas agora teremos maior rapidez e menos burocracia,
o que é fundamental", ressalta o subcoordenador de Vigilância
Epidemiológica, Alexandre Menezes.
Segundo ele, além de facilitar a contratação
temporária de pessoal e o envio de verbas federais, o estado
de emergência "flexibiliza a possibilidade de dispensa
de licitação na aquisição de equipamentos
necessários aos hospitais", principalmente aparelhos
da área de diagnóstico da doença. Os recursos,
por sua vez, poderão ser utilizados na compra de medicamentos,
insumos, entre outras finalidades. "Na próxima semana
certamente já teremos o volume total que vamos necessitar",
ressaltou.
Alexandre lembra que a possibilidade da abertura de processos rápidos
para a escolha de profissionais minimiza em parte o problema gerado
pelo cancelamento do concurso público, realizado em março.
Dentre os contratados emergencialmente para enfrentar a epidemia,
devem constar médicos, enfermeiros, técnicos e especialistas
em análises laboratoriais. "Em função
do limite prudencial e da Lei de Responsabilidade Fiscal essas contratações
não estavam podendo ser feitas", aponta o subcoordenador.
Ainda assim, a população não pode abrir mão
dos cuidados em relação aos possíveis focos
do mosquito Aedes Aegypti. "Uma preocupação grande
no momento deve ser com a eliminação do lixo, que
se tornou o inimigo número 1 nessa nossa batalha contra a
epidemia", diz Alexandre Menezes.
Lotados
Os hospitais de Natal e de Mossoró, principais centros de
saúde pública do Estado, estão lotados. Em
Natal, a fila esperando atendimento no supera 50. Os pacientes acometidos
com sintomas da dengue eram classificados com fichas amarelas e
verdes. Já os outros pacientes recebiam fichas azuis e não
tinha preferência. As reclamações na capital
se repetem no interior do Estado, apesar da estrutura de UPAs, em
Mossoró.
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