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MOSSORÓ (RN), DOMINGO, 11/05/2008 (ATUALIZADO: 17:37hs)
 
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» Moradores vivem em clima de insegurança em meio à violência

» Promotor defende a criação de políticas públicas nas periferias
» Estado faz levantamento para saber quanto vai precisar


MEDO NAS MALVINAS
Moradores vivem em clima de
insegurança em meio à violência

Andrey Ricardo
Da Redação

Os moradores do bairro Dom Jaime Câmara, que fica situado na zona leste de Mossoró e era conhecido como Malvinas, não conseguiram superar a morte de uma criança de apenas seis anos que foi atingida por uma bala perdida na cabeça. Hoje, o clima é de medo e insegurança. Pouca gente se arrisca a falar com a imprensa ou polícia para contar o que se passa naquele setor, mas a verdade é que a lei do silêncio, garantida a força, é quem impera. “Se eu falar com você, eles me pegam”, justifica uma moradora daquele bairro.
Na sexta-feira passada, o DE FATO esteve presente naquele bairro e tentou conversar com algumas pessoas. A resposta é praticamente a mesma. “Eu só falo se você não colocar o meu nome no jornal”, respondeu uma comerciante de iniciais E.B.N., que tem 48 anos de idade e mora no local há cerca de 12 anos. “Eu não posso aparecer porque eles vêm aqui e... (pausa de alguns segundos). Eles são violentos e é por isso que eu vivo trancada dentro de casa. A gente tem medo”, diz a comerciante. A mulher conta que já pensou em mudar sua casa. “Eu já pensei em sair. A gente vive aqui”, desabafou.
Já a dona-de-casa I.L.F, que tem 50 anos e mora no bairro há cerca de onze, conta que não se arrisca sair de casa em horários mais avançados e que não deixa seus filhos nas ruas. Ela diz até seis horas da noite ainda senta na calçada, mas que depois disso não sai. A mulher conta que o problema maior é para quem mora mais perto da favela do Forno Velho. “Vem de lá para cá. Quando começa o tiroteio, quem tiver na rua é alvo”, relata. “De noite, aqui ninguém sai de casa porque tem medo de levar um tiro do jeito que foi com a menina”, acrescenta a dona-de-casa que pede ajuda às autoridades.
O catador de lixo E.G.S, que tem 32 anos e mora no local há mais de dez anos, conta que a partir das dez horas da noite, os bandidos começam a andar armados pelas ruas. “Se olhar para eles, pode morrer porque eles acham que você tá tirando onda...”, comenta E.G.S.. Ele revela ainda que os bandidos andam juntos e são unidos. “É igual a um formigueiro. Se uma pessoa mexer com um deles, é rápido. Logo chegam os outros e aí tá feita a confusão”, conta o catador de lixo. Diferente de I.L.F, ele diz que às vezes se arrisca a sair de casa. “A gente até sai, mas num é garantido voltar pra casa não”, alerta.
Já o funcionário de um outro comércio, situado mais longe da favela do Forno Velho, diz que nunca foi assaltado, mas que é comum avistar pessoas andando armadas pelas ruas. “Rapaz, aqui ninguém nunca mexeu comigo não. Mas o problema é que o bairro não tem segurança. Os caras têm a mania de falar de São Paulo e Rio de Janeiro, mas aqui está pior. Uma cidade pequena como Mossoró chegar a esse ponto. Os caras fazem o que querem e não acontece nada”, reclamou o comerciante com iniciais P.H.O.M., que tem 29 anos e mora no local há de seis anos. “Aqui é difícil”, conclui.

Dependentes incomodam
Com o crescimento do tráfico de entorpecentes naquele setor da cidade, surge um problema: os dependentes químicos. Essa foi uma das principais queixas entre as pessoas entrevistadas pelo JORNAL DE FATO. “No começo, eu dava dinheiro a todos que passavam pedindo. No fim do dia, eu gastava entre R$ 5 e 10. Não dá. É por isso que cheguei a pensar em baixar as portas”, reclama E.B.N., 48 anos. Ela é proprietária de um pequeno comércio e diz que o problema é com os usuários. “Eles passam toda hora. Vem um, depois vem outro. É toda hora isso. Chegou uma hora que eu não dava mais”, diz.
O comerciante P.H.O.M. disse que nunca foi assaltado, mas, em compensação, tem que dar dinheiro aos dependentes que passam pedindo durante o dia. “O problema num é nem com os assaltos, é com os viciados e isso é ainda pior”, diz o comerciante. Para o catador de lixos E.G.S., o problema é ainda mais grave. Ele revela que as represálias para quem não der dinheiro podem ser violentas. “Aqui perto de casa, eles pegaram um senhor e deram uma surra porque ele não tinha dinheiro pra dar”, denuncia o morador. “Se num der, eles podem até matar”, complementa E.G.S..

Promotor defende a criação de
políticas públicas nas periferias

O promotor estadual de Justiça Olegário Gurgel, responsável pela Infância e a Juventude de Mossoró, defende a criação de políticas públicas direcionadas para os bairros periféricos que são atingidos pela violência. “Você tem que partir do pressuposto que o problema do uso de drogas entre os adolescentes não pode ser diagnosticado de uma faceta isolada. É complexo. Necessita de políticas públicas, mas não apenas para o controle, mas para o fortalecimento da educação, da assistência social, da saúde... Ou seja, de uma intervenção mais global”, justifica o promotor Olegário.
Ele explica que o bairro Dom Jaime Câmara se encaixa no perfil daqueles que estão mais vulneráveis aos traficantes, que se instalam e vão contagiando a população progressivamente. “O uso do entorpecente, por jovens e crianças, está ligado a esse contexto e decorre da falta de uma orientação familiar, orientação escolar, orientação de saúde, ou seja, de uma maneira global”, acrescenta Olegário, reforçando também a importância de intervenção policial nesses locais. “Mas paralelo a isso, ninguém pode negar que precisa também da Polícia. Eles são importantes”, complementa o promotor.
Olegário ressalta que o MPE está engajado em levantar a discussão em torno dessas políticas públicas em Mossoró e que essa é uma meta que deve ser atingida ainda neste ano. “O Ministério Público quer discutir políticas públicas porque não adianta querer fazer um programa x para atender um adolescente usuário de drogas sem tentar reduzir a vulnerabilidade nesses territórios”, esclarece a autoridade, acrescentando que a criação, isolada, de um único mecanismo para combater o uso de drogas entre crianças e adolescentes é insuficiente. “É inócua”, opina o promotor.
O Ministério Público Estadual está preparando um inquérito civil para diagnosticar quais são as medidas a serem adotadas nesses locais que considerados mais vulneráveis ao tráfico, de acordo com Olegário. Ele diz que pretende concluir este trabalho até o fim do ano e colocá-lo em prática. “Estamos com um inquérito que vem sendo instruído nos últimos anos pela Promotoria da Infância, mas cujo objetivo é investigar que soluções, em termo de tratamento, o que deve ser levado em consideração para melhorar a situação desses locais”, revela o representante do MPE local.

Estado faz levantamento para saber quanto vai precisar para gastar no RN
O Governo do Estado já iniciou os levantamentos a respeito da quantidade de pessoal a ser contratada e de recursos a serem requisitados ao Ministério da Saúde, de forma emergencial, no combate à dengue. A expectativa é que a decretação de "estado de emergência" pela governadora Wilma de Faria, na última quinta-feira, agilize a atuação da Secretaria Estadual de Saúde. "Todos esses processos já vinham sendo tocados pela secretaria, mas agora teremos maior rapidez e menos burocracia, o que é fundamental", ressalta o subcoordenador de Vigilância Epidemiológica, Alexandre Menezes.
Segundo ele, além de facilitar a contratação temporária de pessoal e o envio de verbas federais, o estado de emergência "flexibiliza a possibilidade de dispensa de licitação na aquisição de equipamentos necessários aos hospitais", principalmente aparelhos da área de diagnóstico da doença. Os recursos, por sua vez, poderão ser utilizados na compra de medicamentos, insumos, entre outras finalidades. "Na próxima semana certamente já teremos o volume total que vamos necessitar", ressaltou.
Alexandre lembra que a possibilidade da abertura de processos rápidos para a escolha de profissionais minimiza em parte o problema gerado pelo cancelamento do concurso público, realizado em março.
Dentre os contratados emergencialmente para enfrentar a epidemia, devem constar médicos, enfermeiros, técnicos e especialistas em análises laboratoriais. "Em função do limite prudencial e da Lei de Responsabilidade Fiscal essas contratações não estavam podendo ser feitas", aponta o subcoordenador.
Ainda assim, a população não pode abrir mão dos cuidados em relação aos possíveis focos do mosquito Aedes Aegypti. "Uma preocupação grande no momento deve ser com a eliminação do lixo, que se tornou o inimigo número 1 nessa nossa batalha contra a epidemia", diz Alexandre Menezes.
Lotados
Os hospitais de Natal e de Mossoró, principais centros de saúde pública do Estado, estão lotados. Em Natal, a fila esperando atendimento no supera 50. Os pacientes acometidos com sintomas da dengue eram classificados com fichas amarelas e verdes. Já os outros pacientes recebiam fichas azuis e não tinha preferência. As reclamações na capital se repetem no interior do Estado, apesar da estrutura de UPAs, em Mossoró.



       




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