

O MODERNO ME
PREGA SUA PEÇA
O fato
é que não vi mais ali para as bandas da chamada praça
dos hospitais, aquele casarão velho parecido com o da minha
avó do lado paterno, em Areia Branca, e é pena. E
só agora é que me dou conta que, ao sentir-lhe a ausência
na emoção dos meus olhos, não se me deu reparar
em que ele foi transformado pela fúria do moderno, ou se
cedeu lugar a um simples terreno despovoado.
Foi nas duas ou três últimas vezes que por ali passei
que dei pela falta dele, o casarão, na mais ou menos longa
fila de casas naquela rua, que direi sem nome, porque é muito
de mim não guardar na memória nome de rua. Tudo o
que posso dizer, se querem saber, é que ela, a dita, fica
ali no lado da frente da Casa de Saúde Dix-sept Roado, e
o casarão objeto destas linhas bem mais para baixo.
Pois bem. O que mais me lembrava, naquele casarão, o da minha
avó, eram as três janelas romanticamente altas, deixando
ver o longo da cumeeira de carnaúba, a calçada alta,
de pedra bruta, principalmente. Assim é que nunca lhe passei
de frente, nas minhas andanças à-toa mas dedicadas
à queima de calorias, sem que a imaginação,
tocada de saudades e lembranças, não me fizesse a
festa dos olhos.
Sim, parava-lhe de frente, algumas vezes, a olhar para dentro, mas
sem descuidar-me dos recursos da dissimulação, que
não é mesmo de bom proceder essa história de
ficar-se a vasculhar com olhos curiosos o lá dentro da morada
alheia. A ampla sala da frente, o correr dos quartos ao comprido
de um corredor meio inclinado, tudo, tudo era a casa da minha avó,
até a pintura das paredes.
Ainda tenho, nos meus guardados relaxados, uma fotografia da casa
da minha avó, ao lado de uma fotografia de conjunto num velho
e tocante, para mim, claro, álbum de família. Lá
estou eu, menino pequeno, no meio, nos braços do meu pai.
É o que me resta como lembrança da casa da minha avó,
que ela, a casa, não existe mais. Era-lhe reprodução
física aquele casarão, que a modernidade expulsou
daquela rua, para tristeza dos meus olhos.
É
CEDO, FICA
As pálpebras da carne se fechavam / Ao céu, côncavo
manto de pelica... / Eu lhe disse: Até logo,
e ela sorrindo, / Dirigindo-se à porta: É cedo,
fica!
Duas horas depois, ao vir da lua, / De aromas cheia, de langores
rica, / Eu lhe disse: Até logo, e ela tristonha,
/ Olhando o plenilúnio: É cedo, fica!
Já muito tarde, quando a madrugada / Desabrochava a flor,
que purifica, / Eu lhe disse: Até logo, ela,
de longe, / Chorando no batente: É cedo, fica!
Oh, bendito esse amor que vela estrelas, / Amor que nos alenta e
mortifica! / Paixão que se despede entre soluços,
/ Entre beijos dizendo: É cedo, fica!
LINGUAGEM
VAZOU INFORMAÇÕES.
Leitor do Jornal de Fato ouviu isto, da ministra Dilma, na televisão
e que saber se a concordância está correta, pois lhe
feriu as orelhas. Absolutamente não. Que foi que vazou? Informações.
A clássica pergunta para se saber o sujeito da oração.
A resposta, no caso, informações, é
sem dúvida nenhuma o sujeito da frase em questão.
Estando o sujeito no plural, vai o verbo para o plural. Todo bom
aluno do curso fundamental sabe disso. Então, a frase fica
correta assim: Vazaram informações. E ainda dizem
que Lula é analfabeto.
|