

Como
Você Quer
Marcelo
Coelho
Sempre tive um bocado de prevenção contra Pirandello.
A surpresa de uma peça como Seis Personagens em Busca
de um Autor parece que se esgota, a meu ver, numa época
saturada de metalinguagem, de filmes que falam de filmes, de romances
que são como cobras engolindo o próprio rabo, e até
nos quadrinhos de Mônica surge, de vez em quando,
o desenhista em crise de inspiração ou interagindo
com os personagens que criou.
A idéia de que tudo é representação,
e que atrás de uma máscara não se encontra
nada além de outra máscara, pode ter sido importante
para discutir a chamada crise intelectual do século
20, mas afinal pode ser também um mero truque sofístico.
Tive uma ótima surpresa ontem, assistindo a Como Você
Me Quer, uma peça de Pirandello bem mais profunda do
que esse jogo a que me referi. Nesse drama, está em funcionamento,
mais uma vez, toda aquela história de que cada indivíduo
é apenas uma personagem criada pelos outros, ou por si mesma,
e de que não há uma verdade interior,
nem mesmo uma verdade factual capaz de dizer quem e
o quê, de fato, cada um é.
Acontece que esse labirinto de identidades está, no caso
dessa peça, a serviço de uma situação
dramática real, em que uma personagem de carne e osso de
fato tem de enganar as pessoas à sua volta sem
que o espectador saiba em momento nenhum se se trata de um embuste
mesmo ou se a personagem apenas finge estar enganando os outros
para descobrir quais suas verdadeiras intenções.
A atenção intelectual do espectador se mantém
desperta o tempo todo, sem que o texto perca em clareza na montagem
que teve a excelente idéia de fazer com que vários
atores assumissem, alternativamente, o papel dessa personagem. Acentua-se,
assim, a presença das múltiplas personalidades
que a protagonista assume quando engana ou quando diz a verdade
aos outros; e, ao mesmo tempo, evita-se que o peso de um papel dificílimo
recaia apenas sobre uma das atrizes da companhia.
Todos atores e atrizes estão numa sinuca, pois
têm de representar bem e, ao mesmo tempo, têm de representar
mal. Uma pessoa tentando fingir que é outra pessoa nunca
é perfeita em seu fingimento; acontecem exageros, momentos
inconvincentes, etc. Como um ator pode fazer isso sem dar a impressão
de que representa mal também?
Ziza Brisola (grávida), empenha-se com sucesso e no fio da
navalha do dramalhão nessa tarefa. Fernanda Moura, que é
quem começa assumindo o papel da protagonista na peça,
é uma sofisticada presença no palco, ao estilo das
divas italianas de outros tempos, mas se ressente do fato de que
a complexidade da situação ainda não foi exposta
plenamente para o espectador naqueles momentos iniciais; um pouco
mais de estilo cinema mudo, e menos drama, talvez a
beneficiasse.
A encenação de Mauricio Paroni de Castro não
cai no erro comum de acrescentar novos elementos e maluquices a
um texto que já é suficientemente complexo em si mesmo.
Ou melhor, acrescenta uma de que não gosto: um longo balé
de travestis, quando os atores masculinos passam a representar,
também, o papel da protagonista.
Entretanto, a idéia de deixar uma cadeira de rodas vazia,
num momento crucial da peça, que não posso descrever
em detalhes, é um bom acréscimo, acho.
Tira, na verdade, uma coisa que imagino existir numa encenação
tradicional, e ao mesmo tempo a idéia geral do espetáculo
se fortalece.
Como Você Me Quer está sendo encenada toda
quarta-feira, às 21h, no Teatro João Caetano, com
direção de Maurício Paroni de Castro que,
à frente da Companhia Manufactura Suspeita e da Companhia
Linhas Aéreas, teve o gesto amigo de encenar as histórias
de Voltaire de Souza nos Satyros, ano passado. Às quintas,
no mesmo horário e teatro, eles encenam outra peça
de Pirandello, Cada um a seu Modo.
Marcelo
Coelho
nasceu em 1959, é membro do Conselho
Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada"
desde 1990.
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