

Coração de mãe
O muito
dito e ouvido "longe da vista, longe do coração",
como todo dito popular, não deixa de ter lá seus foros
de verdade, manifestação que é do espírito
coletivo. Mas como se diz também, e com igual acerto, que
toda regra tem exceção, quero dizer que nem sempre
o coração deixa de sentir o que não entra pelos
olhos, porque adivinha. Que não deixará de ser uma
forma de ver.
Isto, um dia destes topei com uma senhora que conheço de
certo tempo, e que aliás não avistava coisa aí
de dois anos, e notei-lhe o semblante vincado por um não
sei quê que lhe doía no peito, muito dentro. Achei-a
mais velha, bem mais velha, considerada da última vez que
a vi, até vestida sem o aprumo do costume. E paramos para
conversar um pouco, eu tinha pressa.
Isto mesmo; de logo pensei que lhe morrera o marido, pelos sinais
de luto, ele também meu velho conhecido, e que ela ainda
sofria a experiência da viuvez, somente que não podia
atinar se era recente ou já andava em algum tempo, meses,
por aí. Claro, nada de perguntas, como convém a um
cidadão minimamente educado, mas fiquei a olhar, admirado,
como envelhecera ela antes do tempo, quase sem poder dissimular.
Não tardou, e falou-me de um filho que, sem necessidade,
disse, se mandara para São Paulo, coisa de seis meses, e
até agora, notícia que é bom, nada. Não
podia imaginar menos do pior, essas coisas do coração
de mãe. Que uma vizinha de sua amizade antiga procurava dar-lhe
um certo consolo, quase sempre utilizando, no esforço de
vê-la posta em tranqüilidade, o longe da vista, longe
do coração. Ora se isto serve de consolo...
Da minha parte, confesso, fiquei sem achar palavras, diria melhor,
o jeito de amenizar-lhe o sofrimento, que nada pode apaziguar um
coração de mãe em circunstâncias assim.
Mas, como é natural, lembro de ter-lhe dito algo de consolador,
algo porém sem força de convencimento nenhum, eis
que seus olhos sofridos não se exaltaram, num brilho fugaz
que fosse. Isto: o coração lhe sentia o que seus olhos
não podiam ver. Ou então assim: adivinhava.
Pessoa
Á venda na Independência e na Casa da Revista o livro
Momentos de Reflexão de João Pessoa. Trata-se de reflexões
entre poéticas e filosóficas do homem diante das adversidades
da vida. Leitura construtiva.
Castigo
Governador que não ficar com os candidatos de Lula, em seu
estado, as maldições de Brasília sobre ele
haverão de desabar. Vejam aí Lula, como se diz, rezando
pela cartilha velha e revelha da política menor. Onde a democracia?
Enxofres
O diabo teria de juntar um dia os seus enxofres no mesmo saco sebento
e furado.
LINGUAGEM
QUE FAZES ou O QUE
FAZES? Quer saber o estudante Afonso Aires Mota, de Natal. Porque
seu professor de português inquina de erro a segunda construção.
Na verdade, vernaculistas há que não aceitam a segunda
construção. Mas também é verdade que
tanto a primeira como a segunda têm a chancela do grande mestre
Ernesto Carneiro Ribeiro (Tréplica). Sotero dos Reis vê,
no caso, subentendida uma oração principal: Não
sei o que fazes. Houve transformação de apagamento
e de modalidade. Numa palavra: ambas as construções
estão corretas.
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