

O
ÚLTIMO BALÃO
Descrevendo
uma curva meio fechada, o balão foi cair por detrás
do cemitério. Do meio da rua, João Balão acompanhou-lhe
a trajetória, os braços cruzados sobre o peito magro,
retraído pela idade. É o meu último São-joão,
pensou consigo mesmo, ao voltar para sua cadeira de balanço
na calçada de casa. E o meu último balão, completou
o pensamento. Já era muito velho, as complicações
naturais da idade.
Desde moço soltava o seu balão, vermelho e azul, do
fundo do quintal, e ia para o meio da rua acompanhar-lhe a navegação,
que durava alguns minutos, na direção indicada pelo
vento. Daí lhe veio o nome pelo qual era chamado na cidade.
A princípio João do Balão, reduzido para João
Balão no fim. Tinha uma particularidade: depois que o balão
se apagava, ali na calçada, até pelas onze, ele tocava
seu clarinete, a mulher ao lado.
Naquela noite, João Balão não quis tocar seu
velho instrumento, seu companheiro nas horas amargas e doces. Preferiu
entregar-se a pensamentos, esses pensamentos que nos acompanham
no remate dos anos. A mulher, que sempre lhe vinha sentar ao lado
depois de tirar a mesa, findo o jantar, ainda lhe perguntou se não
ia tocar seu clarinete, do costume, se estava sentindo alguma coisa,
outras perguntas nesse gênero. Não, não, estava
bem.
Este é o meu último balão, disse-lhe, com um
sorriso conformado no canto da boca. Estou aqui pensando: A vida
da gente é como um balão de São-joão,
sobe alegre, nas suas cores iluminadas, ganha as alturas, o vento
leva, para satisfação dos nossos olhos, depois, lá
adiante, vai caindo, vai caindo, até desaparecer, apagado.
E este que me parece ser o meu último balão, foi desaparecer
por detrás do cemitério, qualquer coisa assim como
um prenúncio.
Dona Adalgisa ouvindo-lhe as palavras, em silêncio, como que
as ia confirmando, ou antes, sentindo no peso da própria
idade. A vida é mesmo como a trajetória de um balão
de São-joão, às vezes acidentada, que o vento
leva, alegre, e ele mesmo apaga, de repente. Permaneceram mudos
em relação um ao outro, algum tempo, os olhos perdidos
além do mundo. Silêncio da velhice diante do mistério
da vida, feito um punhado de nada no covo da mão.
Quase como num ímpeto, João Balão levantou-se,
apoiando as mãos nos braços da cadeira, esforço
de velho, foi lá dentro trazer o seu clarinete. Havia-lhe
nos olhos um brilho novo de saudade antiga. Teve um sorriso, animador,
para dona Adalgisa, ainda envolta em pensamentos idos e vividos,
e tocou aquela valsa das serenatas para ela, nos seus tempos de
rapaz. Um sorriso de paz, algo de profunda compreensão da
vida, abriu-se-lhe entre as rugas do rosto outrora bonito. E dona
Adalgisa reclinou sua cabeça branca no ombro do companheiro,
como com ele subindo à luz mais pura das alturas, num balão
eterno, ao som daquela valsa dos primeiros sonhos...
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