

O
mundo pós-americano
Daladier Pessoa Cunha Lima
Minha geração conheceu os temores da Guerra Fria:
de um lado os Estados Unidos, do outro, a União Soviética,
em constantes ondas de tensão que sobressaltavam o planeta.
Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, inicia-se a fase do mundo
unipolar, com o poder americano a se sobrepor por todo o globo.
A brusca e terrível ação terrorista de 11 de
setembro de 2001 deixou os Estados Unidos perplexos. A resposta
ao antiamericanismo crescente veio em forma de guerras, com as invasões
do Afeganistão e do Iraque. O jornal Folha de S. Paulo, no
caderno Ilustrada 15/05/2008 , publicou foto de soldado
americano em trincheira no Afeganistão e o seguinte comentário.
A metáfora da exaustão do soldado ilustra de
forma perspicaz a posição atual da falta de rumos
do governo americano na condução política dos
conflitos após o 11 de setembro. Mais de seis anos depois,
os Estados Unidos, assim como o soldado na trincheira, não
sabem mais porque estão ali, tampouco o que fazer para sair
dessa situação. A foto, feita pelo britânico
Tim Hetherington, venceu o prêmio deste ano do World Press
Photo e mostra o jovem combatente desolado, solitário, capaz
de passar mensagem que vai além do desespero.
A ascensão do resto, apesar do título,
é longa, boa e recente matéria publicada na revista
Newsweek, a qual faz precisa análise da situação
atual dos Estados Unidos. O autor, Fareed Zakaria, relata pesquisa
feita entre os americanos, a qual revelou que 81% dos pesquisados
vêem o país em uma rota errada. No período de
25 anos da mesma pesquisa, essa foi a mais negativa de todas. Mas
há motivo para tal pessimismo: pânico financeiro, recessão
clara, guerras sem fim, ameaças de terrorismo.
A ansiedade americana se espalha desde algo mais profundo, pois
há um sentimento de que forças destrutivas contra
o país estão em curso. Na verdade, o que está
em curso é o crescimento de outras regiões do planeta.
São reflexos desse cenário: o mais alto prédio
do mundo está em Taiwan; a maior companhia pública
de comércio está em Beijing; a Índia terá
a maior refinaria; Hollywood está perdendo seu esplendor
para Bollywood (Índia). Até os cassinos de Macao já
ameaçam a grandiosidade e o luxo de Las Vegas. Das dez pessoas
mais ricas do mundo, somente duas são americanas, muito diferente
de dez anos atrás.
Nas duas últimas décadas, países fora das nações
mais industrializadas do ocidente têm crescido em níveis
até então impensáveis. Economistas famosos
identificam 25 companhias que serão as próximas grandes
multinacionais, inclusive quatro do Brasil, além de outras
da Korea do Sul, México, Índia, Taiwan, China, Argentina,
Chile, Malásia e África do Sul. O autor diz, então,
que Isto é o crescimento do resto do resto do
mundo, fruto da globalização. No plano político-militar,
ainda haverá domínio americano, mas esse domínio
não se repete no tocante a outras dimensões
industrial, financeira, educacional, social e cultural.
A matéria da Newsweek é um resumo do livro The
Pós-American World, de Fareed Zakaria. Jornalista e
editor, nascido na Índia, pós-graduado em Yale e em
Harvard, o autor vive em New York e é famoso cientista político.
Sua conclusão é de que o mundo está passando
do antiamericanismo para o pós-americanismo, e, mais ainda,
que os Estados Unidos não devem perder a fé nas idéias
que tanto pregaram, de um mundo aberto para o mercado, para as novas
tecnologias e para as liberdades políticas. O futuro deve
registrar o sucesso dos Estados Unidos, na virada do século
21, em sua grande missão de incentivar a globalização;
e não que esse mesmo país esqueceu, ele próprio,
de se globalizar ao longo do caminho.
Daladier
Pessoa Cunha Lima
é Reitor da FARN.
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