..:: JORNAL DE FATO ::.. JORNALISMO DE VERDADE
MOSSORÓ (RN), SEXTA-FEIRA, 04/07/2008 (ATUALIZADO: 01:27hs)
 
Untitled Document



O dragão na nossa porta
Vilson Antonio Romero

O processo recessivo mundial e o recrudescimento dos preços ao consumidor são as principais preocupações dos presidentes de bancos centrais do G-10 em reunião na Basiléia, Suíça. A pressão sobre os índices inflacionários atormenta os gestores da política monetária das maiores economias do planeta. Há uma avaliação preliminar que a principal causa do encarecimento de alimentos básicos – como arroz, trigo e milho – é o aumento da demanda em países emergentes, como Índia, China e Brasil. A escassez seria, também, incentivo à especulação. Na 35ª. Cúpula do Mercosul, os presidentes reunidos na cidade argentina de Tucuman expressaram seus temores com a crise mundial de alimentos.
O diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, afirmou que ‘’se os preços de alimentos aumentarem e os do petróleo permanecerem os mesmos, alguns governos não serão mais capazes de alimentar suas populações e, ao mesmo tempo, manter a estabilidade de suas economias’’.
A luz vermelha acendeu em todo o planeta: o dragão está batendo à porta de nações desenvolvidas, subdesenvolvidas e miseráveis. É uma recidiva mundial da inflação, num ataque corrosivo e democrático: não perdoa ninguém – ricos ou pobres. Motivado pelo aumento do preço do petróleo, pelo maior consumo de grãos, pela elevação das cotações das “commodities”, etc... Os analistas argumentam e justificam, mas o certo é que a inflação está chegando.
A alta indiscriminada dos preços e a desaceleração das atividades fazem tremer inclusive o poderoso Fed (Federal Reserve), o banco central dos Estados Unidos. No Brasil, os aumentos já sensibilizam negativamente a panela, a farmácia e a ida ao supermercado, à vendinha, à padaria de quase todos os dias.
Apesar de os índices oficiais acumulados sinalizarem com percentuais abaixo dos 10%, o feijão já subiu mais de 180% nos últimos doze meses. Outros itens como a carne (45% de aumento), o tomate (73%), o óleo de soja (59%), o gás vendido a condomínios a granel ou cilindros (30%, só neste ano). Já viram como ficou caro fazer um bife com molho, só pra exemplificar. Os usuários de medicamentos denunciam que remédios controlados foram reajustados em até 52%. Os aluguéis estão pela hora da morte.
Na última pesquisa do Ibope, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), apesar da popularidade do governo se manter, há uma evidente desaprovação à sua atuação no combate à inflação. Este indicador cresceu 10 pontos e alcançou o patamar de 53% em junho, contra 43% em março. Convalidando uma realidade das ruas e dos bolsos, 65% dos entrevistados afirmaram que nos próximos seis meses a inflação vai aumentar, contra 51% no mês de março.
Nas frias ponderações dos indicadores, a inflação de 6,8% medida pelo Índice Geral de Preços — Mercado (IGP-M) superou a rentabilidade dos principais investimentos no primeiro semestre. Já a cesta básica do Dieese – 12 itens que compõem a chamada Ração Essencial – registrou aumento em todas as 16 capitais com percentuais chegando perto dos 30% no semestre e mais de 50% nos últimos 12 meses.
O que fazer para conter a escalada dos preços? O governo planeja quadruplicar os estoques oficiais de grãos, elevar o limite de crédito ao agricultor, principalmente aos que cultivam grãos que integram a cesta básica - arroz, feijão, milho e trigo. A par disto, o Banco Central pode elevar novamente a taxa de juros na reunião do final de julho.
Com o salário perdendo poder aquisitivo e o mês terminando mais cedo, resta ao cidadão comum tomar medidas mais drásticas, impensáveis até há poucos meses. Além de conter ao máximo o consumismo, eliminar o supérfluo, há que serem garroteados os impulsos de comprar o que vai sobrar depois, o que engorda muito, o que irá para o lixo. Os gastos têm de ser de novo muito bem planejados, a lista de compras deve ser analisada sob diversos aspectos, observados a necessidade, o preço e a oportunidade. Ao estocar alguns itens, tem de haver a medida certa para não incorrer em exageros e estouro da despensa. Mas, acima de tudo, em época de visita do dragão da inflação, um dos principais ingredientes de contenção da fera é também pesquisar, pechinchar e comprar só o necessário, para podermos superar a crise que é mundial, mas nos afeta aqui e agora.

Vilson Antonio Romero
é Jornalista.



       


Todos os direitos reservados à Santos Editora de Jornais Ltda.
É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site para fins comerciais sem prévia autorização.