

O
dragão na nossa porta
Vilson Antonio Romero
O processo recessivo mundial e o recrudescimento dos preços
ao consumidor são as principais preocupações
dos presidentes de bancos centrais do G-10 em reunião na
Basiléia, Suíça. A pressão sobre os
índices inflacionários atormenta os gestores da política
monetária das maiores economias do planeta. Há uma
avaliação preliminar que a principal causa do encarecimento
de alimentos básicos como arroz, trigo e milho
é o aumento da demanda em países emergentes, como
Índia, China e Brasil. A escassez seria, também, incentivo
à especulação. Na 35ª. Cúpula do
Mercosul, os presidentes reunidos na cidade argentina de Tucuman
expressaram seus temores com a crise mundial de alimentos.
O diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique
Strauss-Kahn, afirmou que se os preços de alimentos
aumentarem e os do petróleo permanecerem os mesmos, alguns
governos não serão mais capazes de alimentar suas
populações e, ao mesmo tempo, manter a estabilidade
de suas economias.
A luz vermelha acendeu em todo o planeta: o dragão está
batendo à porta de nações desenvolvidas, subdesenvolvidas
e miseráveis. É uma recidiva mundial da inflação,
num ataque corrosivo e democrático: não perdoa ninguém
ricos ou pobres. Motivado pelo aumento do preço do
petróleo, pelo maior consumo de grãos, pela elevação
das cotações das commodities, etc... Os
analistas argumentam e justificam, mas o certo é que a inflação
está chegando.
A alta indiscriminada dos preços e a desaceleração
das atividades fazem tremer inclusive o poderoso Fed (Federal Reserve),
o banco central dos Estados Unidos. No Brasil, os aumentos já
sensibilizam negativamente a panela, a farmácia e a ida ao
supermercado, à vendinha, à padaria de quase todos
os dias.
Apesar de os índices oficiais acumulados sinalizarem com
percentuais abaixo dos 10%, o feijão já subiu mais
de 180% nos últimos doze meses. Outros itens como a carne
(45% de aumento), o tomate (73%), o óleo de soja (59%), o
gás vendido a condomínios a granel ou cilindros (30%,
só neste ano). Já viram como ficou caro fazer um bife
com molho, só pra exemplificar. Os usuários de medicamentos
denunciam que remédios controlados foram reajustados em até
52%. Os aluguéis estão pela hora da morte.
Na última pesquisa do Ibope, encomendada pela Confederação
Nacional da Indústria (CNI), apesar da popularidade do governo
se manter, há uma evidente desaprovação à
sua atuação no combate à inflação.
Este indicador cresceu 10 pontos e alcançou o patamar de
53% em junho, contra 43% em março. Convalidando uma realidade
das ruas e dos bolsos, 65% dos entrevistados afirmaram que nos próximos
seis meses a inflação vai aumentar, contra 51% no
mês de março.
Nas frias ponderações dos indicadores, a inflação
de 6,8% medida pelo Índice Geral de Preços
Mercado (IGP-M) superou a rentabilidade dos principais investimentos
no primeiro semestre. Já a cesta básica do Dieese
12 itens que compõem a chamada Ração
Essencial registrou aumento em todas as 16 capitais com percentuais
chegando perto dos 30% no semestre e mais de 50% nos últimos
12 meses.
O que fazer para conter a escalada dos preços? O governo
planeja quadruplicar os estoques oficiais de grãos, elevar
o limite de crédito ao agricultor, principalmente aos que
cultivam grãos que integram a cesta básica - arroz,
feijão, milho e trigo. A par disto, o Banco Central pode
elevar novamente a taxa de juros na reunião do final de julho.
Com o salário perdendo poder aquisitivo e o mês terminando
mais cedo, resta ao cidadão comum tomar medidas mais drásticas,
impensáveis até há poucos meses. Além
de conter ao máximo o consumismo, eliminar o supérfluo,
há que serem garroteados os impulsos de comprar o que vai
sobrar depois, o que engorda muito, o que irá para o lixo.
Os gastos têm de ser de novo muito bem planejados, a lista
de compras deve ser analisada sob diversos aspectos, observados
a necessidade, o preço e a oportunidade. Ao estocar alguns
itens, tem de haver a medida certa para não incorrer em exageros
e estouro da despensa. Mas, acima de tudo, em época de visita
do dragão da inflação, um dos principais ingredientes
de contenção da fera é também pesquisar,
pechinchar e comprar só o necessário, para podermos
superar a crise que é mundial, mas nos afeta aqui e agora.
Vilson
Antonio Romero
é Jornalista.
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