

UM LIVRO INÚTIL
Folheando
sem interesse um catálogo de editora de livros, dei com os
olhos num livro sobre a inexistência de Deus, de um cientista
americano, cujo nome não sei, mas que é um dos mais
em evidência atualmente. Se não me engano, um dos maiores
da física quântica. Moço, li alguns desses livros,
e achava-os fascinantes. De cientistas, e filósofos. Hoje,
já não me interessam.
A razão é porque acho pura perda de tempo, quanto
mais não seja dissimulada inquietação interior,
qualquer coisa assim, o escrever-se um livro para provar, científica
ou filosoficamente, a inexistência do que temos certeza de
que não existe. Não existe, e acabou-se. Ou tais cientistas
e filósofos não terão tanta certeza assim.
Sua escritura sobre quer-me parecer uma espécie de busca.
Como disse linhas atrás, moço, li muitos desses livros,
como também muitos sobre a existência de Deus. Se aqueles
me fascinavam, estes últimos não me convenciam, senão
por alguns instantes, às vezes. Verdade seja que, passados
esses instantes, dando-me como que certa sensação
de plenitude, restava-me um vazio tão profundo como se fossem
fendas geológicas. Melhor dizer: a vertigem do aniquilamento
essencial..
Hoje, não tenho o mais mínimo apetite para ler tais
livros contra ou a favor da existência de Deus - é
que, na verdade, não provam nada. Cá da minha parte,
e com o escritor Medeiros e Albuquerque, em suas memórias,
acho que nada neste mundo é mais evidente do que o absurdo
em que geme todo o universo. A existência de Deus repugna
à razão. Pelo menos a mim, coisa é que não
convence.
E por que uma vez que outra toco no assunto? Ora, ainda, ora, por
falta de assunto, algumas vezes, outras para variar. Mas confesso,
com toda a sinceridade, passado o tempo da busca, em vão,
meu coração hoje repousa na convicção
de um universo vazio, à mercê, e apenas, das forças
de um determinismo cego, ao sabor de suas próprias leis,
que se explicam pela sua própria existência. Delas,
leis.
ABUSO
Para não dizer a palavra exata. Estou falando da ruindade
que fizeram os abrigados, por causa da cheia do rio, em colégios
públicos. Arrancaram pias, riscaram paredes, pintaram o diabo.
Da Prefeitura, receberam toda a assistência possível,
alimento, produtos de higiene, colchões, e muitos deles,
numa atitude repugnante, decerto atiçados por uma oposição
política sem o mais mínimo escrúpulo, e a preço
vil, ainda falam mal da prefeita. De um lado, a brutalidade mental,
e do outro, o descaramento da política menor. Menorzinha.
LINGUAGEM
Sujeito composto
de pessoas gramaticais diferentes. Leitor do Jornal de Fato quer
saber como, no caso, se faz a concordância do verbo. Ensina
a gramática, com base nos exemplares mais autorizados do
dialeto culto, que o verbo fica no plural da pessoa predominante.
Quer dizer, se houver entre os núcleos a primeira pessoa
(eu, nós), o verbo vai para a primeira pessoa do plural:
Ela e eu defendemos a criação de um país justo.
Se houver a segunda pessoa e a terceira, o verbo vai para a segunda
pessoa do plural: Tu e ela sois amigos do rei. OK?
|