

UM
JOGO DE PERDAS
MIGUEL JOSINO NETO
Pessoas que não falam a mesma língua, ou melhor, linguagem,
não conseguem se comunicar. Ou se comunicar bem. Não
se consegue estabelecer um diálogo limpo, sereno, sadio,
se os interlocutores têm princípios e objetivos diferentes.
Quando os valores divergem, o poder de argumentação
se esvai. É impossível explicar algo a uma pessoa
que sequer sabe que aquele algo existe. Quando para ela não
faz o menor sentido.
É como falar de internet a um índio de uma tribo remota,
que nunca teve contato com a civilização. Para ele,
acender um fósforo é sinal de divindade. Como poderia,
então, entender, compreender a tecnologia da informática?
O mesmo vale para as diferentes condutas humanas. Como falar de
compromisso, responsabilidade e esperar estabelecer um relacionamento
baseado nestes valores com pessoas que desconhecem seu significado?
É dessa falta de entendimento que surgem grandes conflitos
e perduram indefinidamente, até que a parte mais esclarecida
se resigne diante da ignorância do interlocutor, ou que o
interlocutor evolua ao ponto de compreender que há uma mensagem
a ser recebida e procure compreendê-la. Mas, em ambas as situações
apresentadas, é preciso uma coisa fundamental: o desejo,
o respeito, o empenho em se comunicar. E o que move esse desejo,
esse respeito, esse empenho? O que leva alguém a sair do
seu comodismo e a procurar se colocar no lugar do outro, em uma
atitude conhecida como empatia?
Há pessoas que se viciam em "pedir ajuda". E não
lutam, não estudam, não trabalham, não se empenham,
não evoluem. Acomodam-se mediocremente. Mas esta acomodação
requer conivência. Desprovido de valores e estando suprido
em uma situação cômoda, com um "outro"
que luta, estuda, trabalha por ele, para que o empenho em evoluir?
Se sempre consigo levar alguém na conversa, deixando minhas
responsabilidades e compromissos para depois, e se não tenho
o cumprimento de compromissos como um valor, quando quitarei minhas
dívidas e honrarei as responsabilidades que assumi?
Essas situações são danosas tanto para o acomodado
- o que deve e não paga - quanto para o conivente - aquele
que aceita a situação. O acomodado, por viver a fantasia
de que tem o poder supremo de solucionar questões sem esforço,
o que não vale no mundo em que vivemos. O conivente sofre
pela sobrecarga, por viver a sua vida e a do outro, pela culpa de
estimular a acomodação e até a apatia do acomodado.
É até compreensível a atitude de um acomodado
que se encosta em alguém que lhe fornece o que necessita.
Mas o que move o conivente? Por que fazer pelo outro o que é
de direito, dever e responsabilidade deste outro? Por que e para
que passar a mão na cabeça de quem não honra
compromissos, não quer trabalhar, só quer viver de
aparências e no bem-bom? O conivente é, em geral, carregado
de culpas. Quer agradar - ou não quer desagradar - o acomodado
e entra-se num ciclo vicioso e perigoso para ambos. É um
jogo em que não há ganhadores.
Na verdade o "explorado" pelo acomodado tem, sim, um ganho
aparente: talvez no seu ego se sinta superior, pois alguém,
no mundo, no caso o acomodado, precisa dele. Ou é um carente.
O conivente é, no fundo, um falso, um dissimulado, um contrafator,
pois ninguém gosta de pessoas acomodadas à sua volta.
O acomodado é chato, egoísta, repetitivo, tautológico.
É um posudo. Vive de aparências. Tem - ou pensa e finge
que tem - mas não é. E ele, acomodado, não
sabe ou sequer tem consciência de que na vida o importante
é ser e não ter. No íntimo, o conivente não
gosta da situação, mas tolera, mesmo fazendo, às
escondidas, muxoxo ou cara feia. O conivente é, antes de
tudo, um covarde, um co-dependente da situação. O
seu silêncio é deletério a si, faz mal ao acomodado
e é perverso para com a sociedade.
Geralmente, esta situação perdura até que o
conivente assume a verdade da sua mentira e sai dela, se curando
e passando a refugar devedores e parasitas. Não rechaçar,
não refugar os intermitentes apelos, súplicas e demandas
do acomodado, que tudo quer e nada faz, é contribuir para
a desgraça dos dois. Fazer favores, ajudar, ser solidário
é uma coisa. É bom, faz bem. Mas criar uma relação
de co-dependência é patológico. Tem pessoas
que se arvoram de chefs de cuisine e não sabem fazer um café,
advogados que não sabem - e não querem aprender a
fazer - uma petição. Acomodaram-se. E o pior é
que não enxergam o comodismo doentio em que vivem. Será
que vivem?
MIGUEL
JOSINO NETO
é é Procurador do Estado do RN, Professor da Esmarn,
Farn e Esmatra 21.
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