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MOSSORÓ (RN), SÁBADO, 03/05/2008 (ATUALIZADO: 01:47hs)
 
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UM JOGO DE PERDAS
MIGUEL JOSINO NETO

Pessoas que não falam a mesma língua, ou melhor, linguagem, não conseguem se comunicar. Ou se comunicar bem. Não se consegue estabelecer um diálogo limpo, sereno, sadio, se os interlocutores têm princípios e objetivos diferentes. Quando os valores divergem, o poder de argumentação se esvai. É impossível explicar algo a uma pessoa que sequer sabe que aquele algo existe. Quando para ela não faz o menor sentido.
É como falar de internet a um índio de uma tribo remota, que nunca teve contato com a civilização. Para ele, acender um fósforo é sinal de divindade. Como poderia, então, entender, compreender a tecnologia da informática? O mesmo vale para as diferentes condutas humanas. Como falar de compromisso, responsabilidade e esperar estabelecer um relacionamento baseado nestes valores com pessoas que desconhecem seu significado?
É dessa falta de entendimento que surgem grandes conflitos e perduram indefinidamente, até que a parte mais esclarecida se resigne diante da ignorância do interlocutor, ou que o interlocutor evolua ao ponto de compreender que há uma mensagem a ser recebida e procure compreendê-la. Mas, em ambas as situações apresentadas, é preciso uma coisa fundamental: o desejo, o respeito, o empenho em se comunicar. E o que move esse desejo, esse respeito, esse empenho? O que leva alguém a sair do seu comodismo e a procurar se colocar no lugar do outro, em uma atitude conhecida como empatia?
Há pessoas que se viciam em "pedir ajuda". E não lutam, não estudam, não trabalham, não se empenham, não evoluem. Acomodam-se mediocremente. Mas esta acomodação requer conivência. Desprovido de valores e estando suprido em uma situação cômoda, com um "outro" que luta, estuda, trabalha por ele, para que o empenho em evoluir? Se sempre consigo levar alguém na conversa, deixando minhas responsabilidades e compromissos para depois, e se não tenho o cumprimento de compromissos como um valor, quando quitarei minhas dívidas e honrarei as responsabilidades que assumi?
Essas situações são danosas tanto para o acomodado - o que deve e não paga - quanto para o conivente - aquele que aceita a situação. O acomodado, por viver a fantasia de que tem o poder supremo de solucionar questões sem esforço, o que não vale no mundo em que vivemos. O conivente sofre pela sobrecarga, por viver a sua vida e a do outro, pela culpa de estimular a acomodação e até a apatia do acomodado.
É até compreensível a atitude de um acomodado que se encosta em alguém que lhe fornece o que necessita. Mas o que move o conivente? Por que fazer pelo outro o que é de direito, dever e responsabilidade deste outro? Por que e para que passar a mão na cabeça de quem não honra compromissos, não quer trabalhar, só quer viver de aparências e no bem-bom? O conivente é, em geral, carregado de culpas. Quer agradar - ou não quer desagradar - o acomodado e entra-se num ciclo vicioso e perigoso para ambos. É um jogo em que não há ganhadores.
Na verdade o "explorado" pelo acomodado tem, sim, um ganho aparente: talvez no seu ego se sinta superior, pois alguém, no mundo, no caso o acomodado, precisa dele. Ou é um carente. O conivente é, no fundo, um falso, um dissimulado, um contrafator, pois ninguém gosta de pessoas acomodadas à sua volta. O acomodado é chato, egoísta, repetitivo, tautológico. É um posudo. Vive de aparências. Tem - ou pensa e finge que tem - mas não é. E ele, acomodado, não sabe ou sequer tem consciência de que na vida o importante é ser e não ter. No íntimo, o conivente não gosta da situação, mas tolera, mesmo fazendo, às escondidas, muxoxo ou cara feia. O conivente é, antes de tudo, um covarde, um co-dependente da situação. O seu silêncio é deletério a si, faz mal ao acomodado e é perverso para com a sociedade.
Geralmente, esta situação perdura até que o conivente assume a verdade da sua mentira e sai dela, se curando e passando a refugar devedores e parasitas. Não rechaçar, não refugar os intermitentes apelos, súplicas e demandas do acomodado, que tudo quer e nada faz, é contribuir para a desgraça dos dois. Fazer favores, ajudar, ser solidário é uma coisa. É bom, faz bem. Mas criar uma relação de co-dependência é patológico. Tem pessoas que se arvoram de chefs de cuisine e não sabem fazer um café, advogados que não sabem - e não querem aprender a fazer - uma petição. Acomodaram-se. E o pior é que não enxergam o comodismo doentio em que vivem. Será que vivem?

MIGUEL JOSINO NETO
é é Procurador do Estado do RN, Professor da Esmarn, Farn e Esmatra 21.



       




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