

ANTIPATIA LÉXICA
De ordinário,
quem se dá ao ofício de escrever sente antipatia por
determinadas palavras, do mesmo modo que se tem antipatia por determinadas
pessoas, sem que nos tenham feito estas nenhum mal, em tempo algum.
Algumas vezes, num primeiro momento, até. Neste último
caso, a explicação que se possa dar deve de ser a
mesma para o caso das palavras que nos são antipáticas.
Quem sabe coisa parecida ou mesmo igual. Aí, não sei.
De resto, a criatura humana desde o começo a esta parte tem
sido, por falar assim, um território delimitado por simpatias
e seu contrário. Não sei se digo bem, mas nem os santos
terão escapado à regra que parece ser a mesma para
cada pessoa e para cada personalidade, segundo as complicadas estruturas
da psicologia humana.
Então o ofício de escrever, como se dá também
nos atos de fala, sempre se acompanha de repugnância por determinadas
palavras. Para dar um exemplo, o grande escritor de A Casa do Meu
Avô, Carlos Lacerda, não tolerava o vocábulo
"aliás", e não me lembro de já tê-lo
encontrado em seus escritos. Não me vem à lembrança,
agora, o escritor que abominava a locução "de
modo que."
Simples escrevinhador de jornal, mantenho prevenida distância
do adjetivo "lindo", mas, no meu insignificante caso,
posso explicar por quê. Ainda rapazinho, me lembro bem, li
isto, que certos adjetivos são próprios do jeito feminino
de escrever, entre estes o tal. E ficou-me entranhada a lição,
e de tal maneira, que não me consigo vencer, falando ou escrevendo.
Bobagem de certos teóricos do estilo, ontem e ainda hoje.
As palavras foram feitas para dizer, e não será pela
antipatia que uma ou outra possa suscitar em certo escritor, grande
que seja, que se devam mandar para o inferno da pobreza de estilo.
Como é o caso de não irmos com uma determinada pessoa.
Quantas vezes, meus Deus, mais tarde nos sevem, oportunamente. Mas
o fato é, pelo que me toca, não tenho jeito de meter
LINDO no meu vocabulário. Sem machista, porém.
ÉTICA
A pediatra da UPA do Santo Antônio, no fim do plantão
da noite de quinta-feira, 26, na manhã seguinte, sexta-feira,
27, diagnosticou infecção urinária numa criança
de dois anos, mas se recusou a prescrever o medicamento, sob a alegação
de que a mãe da criança não podia comprar.
Atitude de todo contrária à ética profissional,
portanto passível de representação do Ministério
Público. Cabe à Secretaria Municipal de Saúde
chamar à fala essa pediatra, depois de verificar-lhe o nome
na escala do plantão.
LINGUAGEM
Leitor do
Jornal de Fato quer saber se o certo é "adéqua"
(acento tônico no "e") ou "adeqúa"
(acento tônico no "u"). Nem uma coisa nem a outra.
Ora, o verbo "adequar" é defectivo (só possui
as formas arrizotônicas, quer dizer, acento tônico fora
da raiz), razão por que não apresenta as três
pessoas do singular e a terceira do plural do presente do indicativo
e, em conseqüência, não possui o presente do subjuntivo.
Em vez, portanto, de "isto não se adéqua à
regra", use "isto não fica adequado à regra."
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