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MOSSORÓ (RN), TERÇA-FEIRA, 01/07/2008 (ATUALIZADO: 01:27hs)
 
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O ÚLTIMO BALÃO
Descrevendo uma curva meio fechada, o balão foi cair por detrás do cemitério. Do meio da rua, João Balão acompanhou-lhe a trajetória, os braços cruzados sobre o peito magro, retraído pela idade. É o meu último São-joão, pensou consigo mesmo, ao voltar para sua cadeira de balanço na calçada de casa. E o meu último balão, completou o pensamento. Já era muito velho, as complicações naturais da idade.
Desde moço soltava o seu balão, vermelho e azul, do fundo do quintal, e ia para o meio da rua acompanhar-lhe a navegação, que durava alguns minutos, na direção indicada pelo vento. Daí lhe veio o nome pelo qual era chamado na cidade. A princípio João do Balão, reduzido para João Balão no fim. Tinha uma particularidade: depois que o balão se apagava, ali na calçada, até pelas onze, ele tocava seu clarinete, a mulher ao lado.
Naquela noite, João Balão não quis tocar seu velho instrumento, seu companheiro nas horas amargas e doces. Preferiu entregar-se a pensamentos, esses pensamentos que nos acompanham no remate dos anos. A mulher, que sempre lhe vinha sentar ao lado depois de tirar a mesa, findo o jantar, ainda lhe perguntou se não ia tocar seu clarinete, do costume, se estava sentindo alguma coisa, outras perguntas nesse gênero. Não, não, estava bem.
Este é o meu último balão, disse-lhe, com um sorriso conformado no canto da boca. Estou aqui pensando: A vida da gente é como um balão de São-joão, sobe alegre, nas suas cores iluminadas, ganha as alturas, o vento leva, para satisfação dos nossos olhos, depois, lá adiante, vai caindo, vai caindo, até desaparecer, apagado. E este que me parece ser o meu último balão, foi desaparecer por detrás do cemitério, qualquer coisa assim como um prenúncio.
Dona Adalgisa ouvindo-lhe as palavras, em silêncio, como que as ia confirmando, ou antes, sentindo no peso da própria idade. A vida é mesmo como a trajetória de um balão de São-joão, às vezes acidentada, que o vento leva, alegre, e ele mesmo apaga, de repente. Permaneceram mudos em relação um ao outro, algum tempo, os olhos perdidos além do mundo. Silêncio da velhice diante do mistério da vida, feito um punhado de nada no covo da mão.
Quase como num ímpeto, João Balão levantou-se, apoiando as mãos nos braços da cadeira, esforço de velho, foi lá dentro trazer o seu clarinete. Havia-lhe nos olhos um brilho novo de saudade antiga. Teve um sorriso, animador, para dona Adalgisa, ainda envolta em pensamentos idos e vividos, e tocou aquela valsa das serenatas para ela, nos seus tempos de rapaz. Um sorriso de paz, algo de profunda compreensão da vida, abriu-se-lhe entre as rugas do rosto outrora bonito. E dona Adalgisa reclinou sua cabeça branca no ombro do companheiro, como com ele subindo à luz mais pura das alturas, num balão eterno, ao som daquela valsa dos primeiros sonhos...



       




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