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MOSSORÓ (RN), DOMINGO, 01/06/2008 (ATUALIZADO: 18:57hs)
 
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Tudo Passa - e Depressa
VALÉRIO ANDRADE

Este artigo foi publicado em O Jornal de Hoje, mas, diante das solicitações, inclusive de pessoas que se identificaram e se sensibilizaram com o drama da velhice, acatei a sugestão de republicá-lo em Refletores da Fama.
Ao ser perguntado por que estava tão feliz no dia do seu aniversário, o velho chinês, respondeu: “Porque estou um ano mais perto da minha morte”. Em um de nossos últimos encontros, Roberto Campos resumiu numa frase curta o drama da idade: “A velhice é um naufrágio”. E poderia ter acrescentado: inadiável, inevitável, sem sobreviventes.
Alguém já observou que a “juventude é um dom precioso demais para ser desperdiçado pelos jovens”. Ao ver o marido afundado numa poltrona e incapaz de evitar a incontinência urinária, Simone de Beauvoir teve a certeza de que para Jean-Paul Sartre a cerimônia do adeus havia começado.
A fugacidade do tempo é uma realidade que apesar de estar ao alcance de nossos olhos, somente costumamos perceber quando já adentrou por nossas vidas. Ai, então, vemos a verdade das frases tipo: “a vida passa depressa”. Ou da advertência: “aproveite enquanto é tempo”. Mas, ai, também já é tarde demais.
A velhice é o pior dos castigos a que o homem é submetido antes da visita da Dama de Negro. É doloroso ver na tela da televisão ou do cinema a destruição física da beleza. Estatuas de carne e osso cobiçadas por homens e mulheres, despojadas da antiga sedução carnal e ostentando na face e no corpo as cicatrizes do tempo. O recurso da cirurgia plástica é um refúgio mais ilusório do que real, que, às vezes, em vez de ocultar, acentua os estragos da idade. Veja as nossas atrizes das telenovelas - com seus rostos de boneca plastificados.
No mundo fantasioso das idealizações românticas, Vicente Serejo elegeu das musas: Greta Garbo e Sônia Braga. A esfinge sueca, numa atitude tão drástica quanto inusitada, retirou-se de cena na plenitude física dos 40 anos, sem passar pelos tormentos da decadência física e do declínio artístico. Sônia Braga, cuja imagem eternizou-se através da Gabriela, erotização juvenil da beleza brasileira, fez uma reaparição deprimente no programa de Daniel Filho. Chocante, não por estar envelhecida, mas, ao contrário, por causa da artificialidade rejuvenescedora através de cirurgias e da utilização de botox.
Recomendo a Serejo que não vá ver a Sônia que vi na televisão. É melhor para a mente e o coração, imaginá-la como ela já foi. Afinal, já que não podemos dar adeus às ilusões da vida real, evitemos a despedida dos mitos físicos e intelectuais de nossa juventude. O castigo dos deuses não se limita à sentença da velhice. É extensivo às cabeças pensantes e as celebridades políticas. Como esquecer a imagem de Jânio Quadros, esquelético, entrevado, aparentemente senil, sendo carregado nos braços por um enfermeiro? Ou saber que Franklin Roosevelt, vítima de apagões da memória, às vezes falava com um membro do governo sem identificá-lo. Ou Roberto Campos, ainda na plenitude intelectual, emudecido e impossibilitado de escrever.
Esse vendaval de lembranças veio à tona por ocasião do meu aniversário. Entretanto, como não tenho como deter a descida do tempo ladeira abaixo, a comemoração serviu de pretexto para reencontrar os amigos, o que para nós, fordianos, que cultivamos e priorizamos a amizade, é o que melhor sobrou dos tempos idos e vividos.

Valério Andrade
é jornalista e Pesquisador



       




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