

Tudo
Passa - e Depressa
VALÉRIO ANDRADE
Este artigo foi publicado em O Jornal de Hoje, mas, diante das solicitações,
inclusive de pessoas que se identificaram e se sensibilizaram com
o drama da velhice, acatei a sugestão de republicá-lo
em Refletores da Fama.
Ao ser perguntado por que estava tão feliz no dia do seu
aniversário, o velho chinês, respondeu: Porque
estou um ano mais perto da minha morte. Em um de nossos últimos
encontros, Roberto Campos resumiu numa frase curta o drama da idade:
A velhice é um naufrágio. E poderia ter
acrescentado: inadiável, inevitável, sem sobreviventes.
Alguém já observou que a juventude é
um dom precioso demais para ser desperdiçado pelos jovens.
Ao ver o marido afundado numa poltrona e incapaz de evitar a incontinência
urinária, Simone de Beauvoir teve a certeza de que para Jean-Paul
Sartre a cerimônia do adeus havia começado.
A fugacidade do tempo é uma realidade que apesar de estar
ao alcance de nossos olhos, somente costumamos perceber quando já
adentrou por nossas vidas. Ai, então, vemos a verdade das
frases tipo: a vida passa depressa. Ou da advertência:
aproveite enquanto é tempo. Mas, ai, também
já é tarde demais.
A velhice é o pior dos castigos a que o homem é submetido
antes da visita da Dama de Negro. É doloroso ver na tela
da televisão ou do cinema a destruição física
da beleza. Estatuas de carne e osso cobiçadas por homens
e mulheres, despojadas da antiga sedução carnal e
ostentando na face e no corpo as cicatrizes do tempo. O recurso
da cirurgia plástica é um refúgio mais ilusório
do que real, que, às vezes, em vez de ocultar, acentua os
estragos da idade. Veja as nossas atrizes das telenovelas - com
seus rostos de boneca plastificados.
No mundo fantasioso das idealizações românticas,
Vicente Serejo elegeu das musas: Greta Garbo e Sônia Braga.
A esfinge sueca, numa atitude tão drástica quanto
inusitada, retirou-se de cena na plenitude física dos 40
anos, sem passar pelos tormentos da decadência física
e do declínio artístico. Sônia Braga, cuja imagem
eternizou-se através da Gabriela, erotização
juvenil da beleza brasileira, fez uma reaparição deprimente
no programa de Daniel Filho. Chocante, não por estar envelhecida,
mas, ao contrário, por causa da artificialidade rejuvenescedora
através de cirurgias e da utilização de botox.
Recomendo a Serejo que não vá ver a Sônia que
vi na televisão. É melhor para a mente e o coração,
imaginá-la como ela já foi. Afinal, já que
não podemos dar adeus às ilusões da vida real,
evitemos a despedida dos mitos físicos e intelectuais de
nossa juventude. O castigo dos deuses não se limita à
sentença da velhice. É extensivo às cabeças
pensantes e as celebridades políticas. Como esquecer a imagem
de Jânio Quadros, esquelético, entrevado, aparentemente
senil, sendo carregado nos braços por um enfermeiro? Ou saber
que Franklin Roosevelt, vítima de apagões da memória,
às vezes falava com um membro do governo sem identificá-lo.
Ou Roberto Campos, ainda na plenitude intelectual, emudecido e impossibilitado
de escrever.
Esse vendaval de lembranças veio à tona por ocasião
do meu aniversário. Entretanto, como não tenho como
deter a descida do tempo ladeira abaixo, a comemoração
serviu de pretexto para reencontrar os amigos, o que para nós,
fordianos, que cultivamos e priorizamos a amizade, é o que
melhor sobrou dos tempos idos e vividos.
Valério
Andrade
é jornalista e Pesquisador
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