

Uma página de Villaça
Villaça
(Antônio Carlos Villaça) escreveu, em Degustação,
memórias, uma bela página sobre o mal no mundo, e
que releio agora. Não em busca de convencimento em suas razões
filosóficas relativas à existência do mal no
mundo, mas para deliciar-me no seu estilo correto e harmonioso de
mestre da palavra. Villaça, é ele quem o diz, preferia
os vôos da imaginação à exatidão
científica.
Claro que a primeira leitura dessa página filosófica
de Villaça me exigiu a mais atenta consideração
de suas idéias, muito bem ordenadas, diga-se, do ponto de
vista da filosofia, mas dela, leitura, vamos dizer, saí com
as mãos abanando. Quero dizer, não convencido. Que
isto de dizer que o mal é a nota negativa de uma sinfonia
perfeita, que não é substância, e coisa e tal,
é muito bonito, mas, pelo menos a mim, não convence
coisa nenhuma.
O fato é que, desde que o homem começou a fazer uso
do raciocino lógico, até hoje, tem procurado encontrar
uma explicação para o mal no mundo, mas também
é verdade que tudo não vai além de teorias.
De apenas vôos da imaginação, muito próprios
às mentes de nascimento dadas às especulações
metafísicas. Em substância, e a meu ver, o confronto
da razão com o absurdo existencial.
A lenda bíblica da Queda, essa é que menos convence
a inteligência, principalmente na era do jato e do satélite,
pela incapacidade de resistir às indagações
da razão mais elementar. Agostinho, Claudel, em suma, os
chamados gênios da fé nada mais alcançaram,
nisto, senão fantasiar a palavra - que o inexplicável
até pode ser explicado pela genialidade, mas sem a força
vital da justificação.
Vão estas linhas aliás sem o propósito, da
minha parte, e parte sobremodo insignificante, de contestar o grande
estilista das nossas letras modernas, mas com a intenção,
afinal de contas, de dizer da satisfação estética
que, a cada leitura, me proporciona sua escrita de mestre da palavra.
Leitor de memórias, memórias no sentido do sabor literário,
volto sempre às páginas de Villaça, e com a
surpresa agradável da descoberta estilística.
Virose
Esses dias arruinado por uma virose, não tenho a cidade e
fora dela pelos jornais. O fastio da leitura igual ao fastio da
mesa.
Mosquito
Preocupa-me ver o nosso país vencido por um mosquito miserável,
quando há cem anos Oswaldo Cruz, sem os recursos de hoje,
acabou com a febre amarela no Brasil. Particularmente falando, não
se admite que uma cidade como o Rio de Janeiro, viva com o mosquito
da dengue há quinze anos, se fosse uma cubata africana.
Governo
O problema do Brasil é, e apenas, de governo.
LINGUAGEM
Tenho na
minha pequena biblioteca o texto da tão falada reforma ortográfica,
do Antônio Houais. Não se pode dizer que alguma coisa,
nesse texto, não traz vantagem à língua portuguesa.
Alguma coisa. Por exemplo, a simplificação das normas
para o emprego do hífen. A meu ver, e faço logo ver
minha incompetência, trata-se de uma verdadeira agressão
à prosódia do idioma pátrio, cientificamente
estabelecida, há séculos, pelo filólogo português
Duarte Nunes Leão, dos mais competentes do mundo, à
época. Querem mutilar nosso vernáculo.
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