

Poeta
da Morte II
Adalberto Targino
A obra de Augusto dos Anjos é visivelmente de cunho simbolista
(conquanto alguns o rotulem de parnasiano e outros de pré-modernista),
com um foco doentio na morte, na autodestruição, na
descrença da vida..., transportadora da dor humana ao reino
dos fenômenos sobrenaturais ("Homem, carne sem luz, criatura
cega, Realidade geográfica infeliz, O universo calado te
renega E a tua própria boca te maldiz !").
Nota-se, entretanto, um rigor espartano, um nítido perfeccionismo
formal nos seus versos, com obediência sistemática
e rígida à métrica, ao lado do ritmo e da cadência
musical.
Para a maioria dos críticos, os versos anjinianos são
cientificistas, filosofantes, com ênfase na fonética
pouco corrente e o uso perene de proparoxítonos, sintaxe
inusitada, enfim uma ruptura com quase tudo que era trivial e comum.
Na sua antropofagia, vislumbra-se uma cosmogonia oriunda de sua
linguagem exótica, mítica, direcionada ao aniquilamento
material, ao vazio, ao nada...
("E eu, que vivo atrelado ao desalento, Também espero
o fim do meu tormento, Na voz da morte a me bradar: descansa !").
Augusto dos Anjos, a exemplo de Pitágoras e Sócrates,
que nada escreveram mas foram geniais, quase não escrevia
nenhum livro, já que o único, "Eu", só
saiu do ineditismo graças ao incentivo e custeio patrocinado
por um irmão.
O "Doutor Tristeza", em sua única obra, esgota
as elucubrações, conceitos e conclusões poéticas
sobre a tragédia da vida e os mistérios trágicos
da morte. Sintetizou em suas estrofações a poesia,
a filosofia, a arte e a ciência natural, mesmo com visões
aterradoras e dominado por um ceticismo acabrunhador ("Toma
um fósforo. Acende teu cigarro ! O beijo ,amigo, é
a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma
que apedreja.").
O sorumbático poeta-filósofo, mesmo sendo um culto
bacharel em direito, esqueceu a seara forense e centrou sua energia
e formação-informação pessoal no monismo
de Haeckel, no evolucionismo de Darwin, no materialismo de Marx
e no positivismo então reinantes.
Talvez, pela originalidade e erudição de sua poética,
Augusto do Anjos é conhecido, lido e respeitado como único,
singular... Seus versos são lidos por ricos e pobres, independentemente
da etnia, ideologia ou nível intelectual. Seu livro já
ultrapassou a 31ª edição, foi traduzido em várias
línguas, dissecado pela crítica, desafiando os modismos
culturais, as inovações, estilos e metamorfoses da
literatura nacional.
Nomes exponenciais da literatura pátria, como Murilo de Melo
Filho, Gilberto Freyre, Antônio Houaiss, Ferreira Gullar,
Flávio Sátyro, José Américo de Almeida,
dentre muitos outros abordaram com proficiência e exatidão
o homem e a obra inapagáveis ora abordados.
A notoriedade, como é óbvio, não foi desejada
pelo autor - que era avesso aos grupelhos culturais e a divulgação
falaciosa da época e tão em voga nos dias atuais -
mas conseqüência da sua obra marcante, que jamais poderia
passar despercebida dos amantes da boa leitura.
De sua geração, com maior divulgação
e exposição na mídia, foram Gilberto Amado
e José Américo de Almeida, ambos seus contemporâneos
na Faculdade de Direito do Recife, sendo o último seu companheiro
de hospedagem na mesma pensão na capital pernambucana.
Dessa época, materialista, autofágica e questionadora,
surgiu, sedimentada, a poesia científica de Augusto dos Anjos,
que é herdeira da famosa Escola do Recife, sob a influência
e magistério indireto de Tobias Barreto, Silvio Romero, Castro
Alves, Martins Júnior e tantos outros. Tal Escola fulcrou-se
em luminares como Herbert Spenser, Schopenhauver, Victor Hugo, Marx,
etc.
Bernard Shaw, eminente pensador, prelecionava: "Ai do mundo
se não fossem os loucos". E, neste contexto de gênios
loucos ou loucos gênios, inserem-se, com louvor, Augusto do
Anjos, Byron, Nietzche, Oscar Wilde, que foram desajustados geniais.
Apesar de todo desajuste social do genial e inimitável "Poeta
da Morte", adoto como minhas as palavras do escritor Horacio
de Almeida sobre o seu caráter: "Augusto não
era um homem comum, igual aos outros que se acomodam, aos que se
rebaixam para subir, enfim, aos que perseguem riquezas ou fazem
do amor o cio bestial".
Adalberto
Targino
é Presidente da Academia de Letras Jurídicas/RN e
membro da Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas.
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