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MOSSORÓ (RN), QUINTA-FEIRA, 01/05/2008 (ATUALIZADO: 01:27hs)
 
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Poeta da Morte II
Adalberto Targino

A obra de Augusto dos Anjos é visivelmente de cunho simbolista (conquanto alguns o rotulem de parnasiano e outros de pré-modernista), com um foco doentio na morte, na autodestruição, na descrença da vida..., transportadora da dor humana ao reino dos fenômenos sobrenaturais ("Homem, carne sem luz, criatura cega, Realidade geográfica infeliz, O universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz !").
Nota-se, entretanto, um rigor espartano, um nítido perfeccionismo formal nos seus versos, com obediência sistemática e rígida à métrica, ao lado do ritmo e da cadência musical.
Para a maioria dos críticos, os versos anjinianos são cientificistas, filosofantes, com ênfase na fonética pouco corrente e o uso perene de proparoxítonos, sintaxe inusitada, enfim uma ruptura com quase tudo que era trivial e comum.
Na sua antropofagia, vislumbra-se uma cosmogonia oriunda de sua linguagem exótica, mítica, direcionada ao aniquilamento material, ao vazio, ao nada...
("E eu, que vivo atrelado ao desalento, Também espero o fim do meu tormento, Na voz da morte a me bradar: descansa !").
Augusto dos Anjos, a exemplo de Pitágoras e Sócrates, que nada escreveram mas foram geniais, quase não escrevia nenhum livro, já que o único, "Eu", só saiu do ineditismo graças ao incentivo e custeio patrocinado por um irmão.
O "Doutor Tristeza", em sua única obra, esgota as elucubrações, conceitos e conclusões poéticas sobre a tragédia da vida e os mistérios trágicos da morte. Sintetizou em suas estrofações a poesia, a filosofia, a arte e a ciência natural, mesmo com visões aterradoras e dominado por um ceticismo acabrunhador ("Toma um fósforo. Acende teu cigarro ! O beijo ,amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja.").
O sorumbático poeta-filósofo, mesmo sendo um culto bacharel em direito, esqueceu a seara forense e centrou sua energia e formação-informação pessoal no monismo de Haeckel, no evolucionismo de Darwin, no materialismo de Marx e no positivismo então reinantes.
Talvez, pela originalidade e erudição de sua poética, Augusto do Anjos é conhecido, lido e respeitado como único, singular... Seus versos são lidos por ricos e pobres, independentemente da etnia, ideologia ou nível intelectual. Seu livro já ultrapassou a 31ª edição, foi traduzido em várias línguas, dissecado pela crítica, desafiando os modismos culturais, as inovações, estilos e metamorfoses da literatura nacional.
Nomes exponenciais da literatura pátria, como Murilo de Melo Filho, Gilberto Freyre, Antônio Houaiss, Ferreira Gullar, Flávio Sátyro, José Américo de Almeida, dentre muitos outros abordaram com proficiência e exatidão o homem e a obra inapagáveis ora abordados.
A notoriedade, como é óbvio, não foi desejada pelo autor - que era avesso aos grupelhos culturais e a divulgação falaciosa da época e tão em voga nos dias atuais - mas conseqüência da sua obra marcante, que jamais poderia passar despercebida dos amantes da boa leitura.
De sua geração, com maior divulgação e exposição na mídia, foram Gilberto Amado e José Américo de Almeida, ambos seus contemporâneos na Faculdade de Direito do Recife, sendo o último seu companheiro de hospedagem na mesma pensão na capital pernambucana.
Dessa época, materialista, autofágica e questionadora, surgiu, sedimentada, a poesia científica de Augusto dos Anjos, que é herdeira da famosa Escola do Recife, sob a influência e magistério indireto de Tobias Barreto, Silvio Romero, Castro Alves, Martins Júnior e tantos outros. Tal Escola fulcrou-se em luminares como Herbert Spenser, Schopenhauver, Victor Hugo, Marx, etc.
Bernard Shaw, eminente pensador, prelecionava: "Ai do mundo se não fossem os loucos". E, neste contexto de gênios loucos ou loucos gênios, inserem-se, com louvor, Augusto do Anjos, Byron, Nietzche, Oscar Wilde, que foram desajustados geniais.
Apesar de todo desajuste social do genial e inimitável "Poeta da Morte", adoto como minhas as palavras do escritor Horacio de Almeida sobre o seu caráter: "Augusto não era um homem comum, igual aos outros que se acomodam, aos que se rebaixam para subir, enfim, aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial".

Adalberto Targino
é Presidente da Academia de Letras Jurídicas/RN e membro da Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas.



       




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